Os riscos de insistir no consumismo

Após recuperar os níveis pré-crise, o encolhimento relativo da indústria se acentuou, em face do aumento do custo unitário do trabalho

A difícil situação econômica que o país vive atualmente tem pouco a ver com a crise externa e mais com as dificuldades para lidar com os desdobramentos do modelo pró-consumo posto em prática nos últimos tempos, sem falar na volta a erros do passado.

Impulsionado, a partir do destravamento da economia em 2003, pelo forte crescimento da demanda de consumo, o crescimento da demanda agregada se espalharia pela economia e mostraria resultados divergentes, em grande medida inevitáveis, nos setores básicos: Serviços e indústria de transformação. Sem prejudicar o raciocínio geral, deixo de lado o setor de commodities, que é voltado basicamente para o exterior e é por ele guiado.

Já o de serviços, que responde por quase 70% da economia, basicamente não importa do exterior, sua produção teria necessariamente de crescer acima da dos demais. Sem a velha restrição de divisas, a Indústria tenderia a desempenhar o papel de importador estratégico, ou de ter sua produção crescendo a uma menor velocidade, liberando recursos — capital e mão de obra — para a expansão de Serviços. A hipótese de o País absorver maior volume de poupança externa não mudaria esse quadro, quando se considera que ela só consegue ser materializada em investimento físico mediante aumento do déficit externo, vale dizer das importações. Ou seja, maior ingresso de poupança externa é mais uma razão para aumentar as importações industriais.

O mecanismo de formação de preços dá vida a esse processo, pois os preços de Serviços, que se determinam pelo cruzamento de curvas convencionais de oferta e demanda internas, tendem a subir mais que os da Indústria, puxando o aumento de salários. Na Indústria, em contraste, a oferta é uma linha reta horizontal determinada fora do País, com tendência a se deslocar permanentemente para baixo, pelo efeito Ásia. Os preços relativos sobem em favor de Serviços, porque ali a oferta é bem mais rígida, inclusive pela forte presença/interferência do governo nesse setor, que não tem recursos para investir e hesita em abrir espaço para o setor privado fazê-lo. Na indústria, a oferta é bem mais flexível. Ali o mundo é o limite.

A indústria tem de pagar os mesmos salários mais altos que Serviços paga, e enfrentar uma receita unitária medida em dólares tendendo a cair. A consequência óbvia é o menor crescimento da produção industrial, exceto nos segmentos em que, nesse processo todo, haja aumento de produtividade capaz de compensar os demais efeitos desfavoráveis que afetam esse setor. Como consequência, ocorreria aumento das importações da indústria, a fim de atender ao crescimento da demanda.

Mesmo que o País não fosse inundado por dólares devido ao aumento dos preços de commodities e ao forte ingresso de capitais, esse movimento de preços relativos corresponderia a uma apreciação real da moeda, necessária para realizar todas as movimentações derivadas do modelo de baixa poupança ou alto consumo em vigor. Como ser contra isso?

Numa primeira fase, diante da inundação de dólares, a taxa de juros e a taxa de câmbio entraram em tendência de queda; o crédito e os gastos públicos correntes explodiram — e com eles o consumo; os salários ascenderam, a partir do setor de serviços; este passou a crescer mais que os demais e a absorver o emprego liberado pela Indústria. Esta cresceu menos, mas a taxas consideradas aceitáveis. Ao mesmo tempo, e financiada por poupança externa, a taxa de investimento global subiu até 2008, permitindo aumento da taxa de crescimento sustentável do PIB para algo próximo de 4,5% do PIB, segundo se estimou.

Mais adiante, a deterioração fiscal acenderá uma luz amarela no painel do País, e novo esforço de ajuste terá de ocorrer para evitar outra crise interna

Vistos de hoje, os acontecimentos no período desde o fim da crise mostram, contudo, que os mecanismos de propulsão do consumo perderam força, mesmo sob forte estímulo fiscal. O crescente comprometimento das rendas familiares com o serviço das dívidas é um óbvio fator limitador. Mais adiante, a deterioração fiscal acenderá uma luz amarela no painel do País, e novo esforço de ajuste terá de ocorrer para evitar outra crise interna.

Em adição, após recuperar os níveis pré-crise, o encolhimento relativo da Indústria se acentuou, em face do aumento do custo unitário do trabalho, vale dizer, do aumento dos salários acima da produtividade industrial, algo que não havia ocorrido até então. Pouco adiantaram as medidas de proteção introduzidas pelo governo, incluindo a desvalorização forçada da moeda que ocorreu no ano passado.

Por fim, a inflação pulou de patamar, diante da busca de juros baixos a qualquer custo e da desvalorização cambial extemporânea de 2012, e a despeito dos novos controles de preços. As concessões de infraestrutura ainda não deslancharam. Nessas condições, os investimentos vêm caindo seguidamente e a taxa de crescimento do PIB se situa abaixo do potencial. A resistência a diminuir a ênfase no consumo como motor de crescimento e a tentação à volta a um passado que fracassou sintetizam as razões para a difícil situação atual. Os inéditos níveis da taxa de desemprego e dos salários são o último baluarte a ruir da fase que se esgotou.

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