Os riscos de uma desaceleração acentuada do crescimento chinês

Analisar a economia chinesa é uma tarefa complicada, por sua complexidade e falta de transparência. Mas, devido à sua enorme importância no cenário mundial, alguma estimativa se faz necessária. Economistas começam a identificar sinais de espuma, principalmente no mercado imobiliário chinês. Se o alerta estiver correto, os riscos para países emergentes como o Brasil, muito dependentes da demanda chinesa, não podem ser menosprezados.

A China apresenta mudanças estruturais, experimentando tardiamente sua revolução industrial. Com mão de obra barata e abundante e uma poupança gigantesca, os ganhos de produtividade garantem uma vantagem comparativa no modelo de exportação adotado pelo país. Mas esse modelo apresenta suas falhas, e alguns pilares não são sustentáveis.

O fato de quatro bancos estatais concentrarem o crédito faz com que as decisões de investimento tenham um peso político elevado demais. Além disso, o foco obsessivo no crescimento tem feito com que governos locais adotem incentivos errados, com investimentos pouco rentáveis ou mesmo desnecessários. Cada província precisa apresentar números crescentes e existem casos até de “cidades fantasmas”. Construir casas e pontes onde sequer há demanda, eis um efeito perverso do modelo chinês.

Quase toda bolha especulativa parte de fundamentos sólidos. A trajetória chinesa possui aspectos econômicos interessantes, e seu espetacular crescimento pode criar o ambiente propício ao exagero. Foi assim com as ferrovias no século XIX, o rádio nos anos 1920 e a internet recentemente. Há também, por trás de muitas bolhas, uma fé cega na competência das autoridades.

Muitos acreditam que o governo chinês será capaz de controlar seus excessos. Mesmo com inflação crescente, por conta de uma expansão monetária de dois dígitos, os investidores assumem que as medidas administrativas serão suficientes para conter o avanço dos preços, sem precisar de um forte aumento dos juros.

A taxa de câmbio artificialmente controlada é outro pilar frágil do modelo. Taxas fixas estiveram por trás de crises como a da Argentina e da Ásia. O crédito excessivo, estimulado pela baixa taxa de juros, planta as sementes dos problemas futuros. Novos especuladores são atraídos pelo crescimento da economia, e eles adotam uma postura negligente em relação aos riscos, contando sempre com o resgate do governo em caso de crise.

Há claros sinais de espuma na economia chinesa, sobretudo em infraestrutura e no setor imobiliário. Alguns aeroportos menores, por exemplo, operaram com a metade da capacidade no ano passado. Existem indícios de excesso de capacidade na construção de navios, aço, cimento e ferro. A corrupção parece galopante, o que é esperado quando o governo concentra tanto poder e recurso.

Governos locais criaram veículos fora do balanço para garantir financiamento aos investimentos em suas regiões, o que pode gerar problemas sérios, caso a economia passe por uma desaceleração. O preço das casas sobe em parar, mesmo em relação à renda. Quando se observa os principais centros, como Xangai e Beijing, a situação é ainda mais alarmante, com aumentos de até 60% em apenas um ano. Mais de 20% dos empréstimos bancários foram destinados a esse setor.

Outro indicador importante é o excesso de otimismo nas projeções da maioria dos analistas. Livros são escritos sobre como a China será rapidamente a maior potência mundial, superando os Estados Unidos e a Europa. O “modelo chinês” passa a ser sinônimo de eficiência. O acúmulo de reservas, acima de US$ 2 trilhões, passa uma ideia de invencibilidade. Tudo isso nos remete à euforia com o Japão nos anos 1980.

Caso a economia chinesa realmente esteja passando por uma fase de espuma, os investidores precisam ficar bastante alertas aos riscos que isso representa. Afinal, a participação chinesa no consumo das principais matérias-primas é significativa. Dependendo da commodity, a China já representa de 40% a 50% da demanda mundial. Se o crescimento chinês se mostrar insustentável nesses patamares, a queda abrupta na sua demanda fará com que os preços das principais commodities desabem, prejudicando inúmeros países emergentes, como o próprio Brasil. Eis um risco que não pode ser ignorado pelos investidores.

Fonte: Jornal “Valor Econômico” – 19/05/10

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