Sábado, 3 de dezembro de 2016
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Os “zé manés” do terror e a nossa responsabilidade no debate público

Os órgãos de inteligência e a Polícia Federal agiram com rapidez neste episódio de risco de ação terrorista no Brasil. Observe-se: não se trata do “governo”. A ação foi conduzida por instituições de Estado, a partir de um alerta do FBI, segundo relato do procurador federal Rafael Miron. Vamos ser claros: há uma lei, no país, que regula a ação do Estado diante do terror; há informação e, por óbvio, zonas de incerteza. E há o momento em que se espera exatamente isto: que as instituições de segurança tomem decisões.

O que me espantou foi perceber que mesmo um tema dessa gravidade, envolvendo risco de ação terrorista às vésperas de uma Olimpíada, pode cair na vala comum do nosso cansativo bate-boca político de todos os dias.

Li o artigo de um conhecido blogueiro oposicionista fazendo troça da ação da Polícia Federal, dizendo que o governo não tem a “mínima ideia” do que é terrorismo, que os suspeitos não passam de “zé manés” e não têm “ligação comprovada” com os líderes do terror. Outro “analista” foi mais longe: toda a ação de nossos órgãos de segurança não passou de uma “palhaçada”, destinada a fazer mídia para o governo e por fim entrar na “história universal dos fiascos”.

Quando leio esse tipo de coisa, me vem à mente a figura de Mohamed Bouhlel. Perfeito “zé mané”. Um tipo “normal”, segundo os colegas de trabalho, pouco religioso, apreciador do radicalismo islâmico e sem nenhuma “ligação comprovada” com líder nenhum do terrorismo. Na noite de 14 de julho, Bouhlel entrou com um caminhão na Promenade des Anglais, em Nice, matando 84 pessoas.

Eu me lembro também de um jovem norueguês, Anders Breivik. Tipo medíocre e solitário, viciado em videogames, ativista político frustrado, cara legal, ainda que pernóstico, para os poucos amigos. Sem “ligação comprovada” com nenhum grupo terrorista, Breivik costumava curtir sites anti-imigração e fazer postagens algo lunáticas na internet. Ninguém lhe deu atenção. A polícia norueguesa, talvez por falta de “indícios”, talvez para evitar uma grande “palhaçada”, nunca se incomodou com Breivik. Até o dia em que ele invadiu o acampamento juvenil do partido trabalhista da Noruega e fuzilou 77 crianças.

Zé mané completo era Omar Mateen, um cara brigão que costumava dizer asneiras sobre um suposto parentesco com Bin Laden. Omar trabalhava como segurança, levava uma vidinha pacata e seus pais não perceberam nada diferente quando o filho amoroso os visitou, horas antes de metralhar 49 pessoas na boate gay Pulse, em Orlando.

O jornalista Hélio Schwartsman acertou na mosca, em um artigo recente, ao identificar o impacto das redes sociais na lógica do terror. O Estado Islâmico não organiza, mas “inspira”, por vezes “orienta” a ação terrorista. Há menos espaço, no mundo atual, para ações coordenadas e relativamente complexas, como foi o 11 de setembro. O mais rápido e eficiente é conectar lobos solitários. Quem são eles? Ninguém sabe. Pode ser um motorista, um guarda de supermercado, um garoto mimado viciado em World of warcraft ou mesmo um criador de galinhas, no interior gaúcho. Quase todos são “amadores” e virtualmente nenhum tem relações “orgânicas” com algum grupo terrorista.

Schwartsman fala do “Uber do terror”, referindo-se aos ataques recentes. Vou mais longe: o terror contemporâneo é muito menos organizado do que qualquer modelo de sharing economy. Ele segue a natureza caótica, tribal, o efeito de contágio das redes sociais. E não guarda conexão necessária com esta ou aquela ideologia ou movimento. Frequentemente não responde a líder nenhum, e não passa de uma piada supor que devam existir “ligações comprovadas” com o terrorismo organizado para que as instituições da democracia façam sua parte.

Nessa nova configuração, boa parte do que chamamos de “terrorismo” se confunde com atos de violência política, racial ou a mera ação tresloucada de indivíduos isolados. O recente massacre de Dallas, por exemplo, seguiu um recorte racista. Micah Johnson queria matar “policiais brancos”. Um lobinho solitário, descrito pelos amigos como um cara amoroso e divertido. Um zé mané que postava bobagens na internet e curtia os “panteras negras do Mississippi”.

Lobos solitários, ou potenciais lobos solitários, podem estar em qualquer parte. Suas razões? Logo haverá um catálogo delas. Ressentimento social, algum distúrbio ou a mera busca de notoriedade. Sejamos francos: ninguém sabe direito como confrontar esse novo fenômeno. Novo na escala, no arco de justificações e incentivos. Novo em função da agressividade do Estado Islâmico, que por certo não é o responsável pela nova onda de terror, mas que forneceu uma “narrativa” de radicalização e violência com alcance global.

Em situações de incerteza como a que vivemos, a reação óbvia que se espera dos órgãos de segurança é aumentar o “custo de entrada” no mundo do terror. Confrontar um grupo ainda amador, em estágio embrionário de organização, como é o caso dessa turma detida no Brasil, é imensamente mais simples do que impedir que alguém invada um passeio público dirigindo um caminhão, em uma noite festiva qualquer. Não vai aqui uma “solução” para o problema do terror. Apenas o reconhecimento de que as chances de avanço da violência são maiores em ambientes institucionais frágeis, carentes de ações preventivas e culturalmente lenientes.

É por isso que me parece acertada a rápida ação das instituições brasileiras. Não tenho a menor ideia se o ministro da Justiça falou bem, ou falou demais, em sua entrevista. Numa grande democracia, autoridades são criticadas pela oposição quando falam demais. E são criticadas pela oposição quando falam de menos, omitindo informações do grande público. É natural que assim seja. Apenas acho que estamos, como país, aprendendo a lidar com um fenômeno novo. E deveríamos ter um pouco mais de responsabilidade ao tratar de um tema dessa gravidade.

De minha parte, penso que nossas autoridades – falando muito ou pouco – deixaram claro que o Brasil não vai tolerar que ninguém, sob pretexto algum, cruze a linha tênue que separa a liberdade de expressão ou organização e a prática ou incentivo ao terror. Isso não nos deixa livres de eventuais problemas. Mas estabelece um patamar mínimo de proteção de nossas comunidades, do qual em nenhuma hipótese podemos abdicar.

Fonte: “Época”, 25 de julho de 2016.

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