Otimismo ma non troppo

Em qualquer circunstância, andar para trás – por menor que seja o passo – não é uma situação desejável quando o assunto é economia. Mesmo assim, ninguém deve se assustar com os números divulgados ontem pelo Ministério da Fazenda na edição de fevereiro do documento “Economia brasileira em Perspectiva”.

Ali se percebe uma redução da projeção de crescimento em 2011 (cujos dados ainda não foram fechados) de 3,8% para 3,2%.

E, para este ano, um novo recuo de 5% para 4,5%. Sem querer esbanjar otimismo, é preciso entender bem o significado desses números. Em primeiro lugar, é certo que eles não indicam retrocesso.

Apenas um avanço mais lento do que se imaginava. No mais, um conjunto de dados incluído no documento permite apostar que o movimento dos próximos anos será positivo e que o Brasil pode, sim, contar com avanços importantes no que diz respeito a crescimento, estabilidade, contas públicas e assim por diante.

O indicador de atividade econômica medido pelo Banco Central, para citar um exemplo, está em 140 pontos – maior do que o do início do ano passado (o índice tem como base 100 os números de 2002, quando a atividade econômica começou a ser acompanhada pelo BC).

O índice de confiança da Fundação Getulio Vargas abriu o ano com 116 pontos – ligeiramente abaixo do número de dezembro passado, que era de 119 pontos (uma queda mais do que justificável pelo calendário).

O investimento este ano deve crescer mais do que o PIB. Em 2012, o volume de investimentos deve se expandir 10,8%, enquanto o PIB deve ficar nos projetados 4,5%. Com isso, pela primeira vez na história, a taxa de investimentos deve superar a marca de 20% do PIB.

O Investimento Estrangeiro Direto deve permanecer elevado, os juros em queda, o real menos valorizado em relação ao dólar… ou seja: tudo leva a crer que o Brasil vai mesmo adiante. Ótimo.

O grande problema dos dados comparativos apresentados no estudo do Ministério da Fazenda é a tentativa de transformar em vantagem alguns aspectos nos quais o país tem necessidade de avançar num ritmo mais acelerado do que o observado até aqui. Tome-se, por exemplo, a questão da infraestrutura.

Os dois maiores investimentos previstos na construção de hidrelétricas (o das usinas de Belo Monte, de US$ 16 bilhões, e de São Luiz do Tapajós, de US$ 12,6 bilhões, ambos no Pará) ainda não saíram do papel e enfrentam a resistência dos que preferem ver o Brasil iluminado a lamparinas.

O Brasil tem dois entre os nove maiores projetos de expansão portuária do mundo. Um é o da ampliação do Porto de Santos, o maior do país, que exigirá US$ 2,9 bilhões em investimentos.

O outro é o do Complexo de Açu, que o empresário Eike Batista está construindo no norte do estado do Rio de Janeiro – com investimentos estimados em R$ 1,8 bilhão. Todos esses, e mais alguns outros projetos mencionados no estudo, são relevantes e absolutamente necessários.

O problema é que, por mais que se planeje e se faça, sempre fica a impressão de que falta muito para o país satisfazer suas necessidades. A sensação que se tem é que mesmo a perspectiva mais otimista mostra que a tarefa que o país tem pela frente ainda é enorme.

Fonte: Brasil Econômico, 14/02/2012

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