A explosão da plataforma da British Petroleum no Golfo do México foi uma tragédia.  Além da perda de vidas, milhares de barris de óleo cru vazaram durante meses do fundo do mar, trazendo impactos ambientais tremendos.  A BP é responsável, sem dúvida alguma, por prejuízos ainda incalculáveis, que demandarão anos e bilhões de dólares para sanar.

Mas o acidente foi também uma dádiva para certo radicalismo ambientalista, há muito imbuido da redentora missão de banir os combustíveis fósseis do convívio humano.  Logo de cara, o Presidente Obama voltou atrás na decisão de liberar a exploração de petróleo e gás em parte da plataforma continental norte-americana, há décadas proibida por leis ambientais.  Em seguida, o mesmo Obama decretou uma moratória da prospecção no Golfo do México.  Os governos europeus, por seu turno, ameaçam a indústria petrolífera com tantas novas regulamentações, que o próprio negócio pode tornar-se inviável por lá.

Por maiores que tenham sido o desastre e os prejuízos dele derivados, será que essa “guerra santa” é justificável?

Se consumimos hidrocarbonetos, é porque eles nos garantem níveis de prosperidade, conforto e mobilidade como nenhum outro combustível.  A energia deles obtida melhora nossa saúde, reduz a pobreza, permite uma vida mais longa, segura e melhor.  Ademais, o petróleo não no fornece somente energia, mas também plásticos, fibras sintéticas, asfalto, lubrificantes, tintas e uma infinidade de outros produtos. 

“O petróleo talvez seja a mais flexivel substância jamais descoberta,” escreveu Robert Bryce em “Power Hungry”, um livro iconoclástico sobre energia. “O petróleo”, diz ele, “mais do que qualquer outra substância, ajudou a encurtar distâncias.  Graças à sua alta densidade energética, ele é o combustível quase perfeito para a utilização em todos os tipos de veículos, de barcos a aviões, de carros a motocicletas.  Não importa se medido por peso ou volume, o petróleo refinado produz mais energia do que praticamente qualquer outra substância comumente disponível na natureza.  Essa energia é, além de tudo, fácil de manusear, relativamente barata e limpa”.  Caso o petróleo não existisse, brinca Bryce, “teríamos que inventá-lo”.

Mas nem tudo são flores, como bem demonstra o desastre recente.  Como quase tudo na vida, há o lado bom e o lado ruim. Estatisticamente, para cada avião produzido, a probabilidade de acidentes aumenta, trazendo riscos aos usuários. Todavia, deixar de construir aviões não seria uma decisão razoável, já que os benefícios gerados superam em muito os eventuais malefícios. Da mesma maneira, ao decidirmos pelo uso medicinal de determinadas drogas, estamos cientes de que uma pequena fração de consumidores é suscetível a efeitos colaterais muitas vezes graves. No entanto, em vista da eficácia dessas substâncias para a maioria, não hesitamos em produzi-las.  Com efeito, a prospecção de petróleo, principalmente em alto mar, envolverá sempre riscos.  E o fato de ser impossível eliminá-los não é motivo para banir esta dádiva da natureza.

Algum dia, no futuro, haverá fontes de energia tão ou mais abundantes, eficientes, limpas e economicamente viáveis que os hidrocarbonetos. Em termos de rendimento econômico e ambiental, essas novas fontes  deverão produzir o máximo de energia, em escala sustentável e, principalmente, no menor espaço possível, já que uma das maiores carências da humanidade é a terra utilizável.  Quanto mais terras nós ocupamos para produzir energia, menos espaço teremos para as florestas, a agricultura e a pecuária.  Mas esta revolução energética parece ainda distante.  O fato é que as ditas “energias verdes” – solar, eólica e biocombustíveis -, além de estarem bem longe de uma escala sustentável, precisam de grandes espaços para que sejam minimamente viáveis.

Portanto, se excluírmos da equação o (discutível) argumento das mudanças climáticas, uma coisa torna-se inescapavelmente clara: os combustíveis fósseis têm sido uma grande benção, não só para a humanidade, mas para o meio-ambiente.  Foi graças a eles, por exemplo, que o óleo de baleia e a madeira deixaram de ser utilizados como combustível, seja para iluminação, para aquecer as residências ou para fazer mover os veículos.  Sem o petróleo, o gás e o carvão mineral, provavelmente teríamos hoje muito menos baleias, florestas e parques.

Por mais que isto possa parecer estranho a alguns, a verdadeira energia verde são os combustíveis fósseis.

Fonte: Jornal “O Globo” – 21/07/10

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