Segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Para amanhã ser outro dia

Há mais de 20 anos, passei alguns meses no exterior e esperava encontrar um país mudado na volta. Quando parti, o Brasil estava em crise, com grande volatilidade nos mercados, que toda sexta-feira aguardavam o anúncio de mudanças fundamentais. Mas acabei encontrando praticamente a mesma situação, pautada por ansiedades e discussões de curto prazo.

Estamos de novo em crise. Olhando a história, fica claro que, para superá-la, é preciso parar de focar na volatilidade diária de dólar, juros e risco-país e buscar soluções que estabilizem a dívida pública e gerem crescimento sustentável. As taxas de crescimento brasileiras têm sido decrescentes e, mesmo depois desta recessão, as previsões são de taxas modestas na próxima década.

O primeiro passo para mudar o quadro é a estabilização fiscal, com a adoção, legal ou constitucional, de teto às despesas públicas como proporção do PIB, proposto aqui na semana passada. Os passos seguintes seriam a adoção de soluções exequíveis aos problemas estruturais da economia.

O primeiro passo para mudar o quadro é a estabilização fiscal, com a adoção, legal ou constitucional, de teto às despesas públicas

Comparando fatores de crescimento, comecemos pelo o que não é problema. Não temos problema de escala, pois somos o oitavo mercado mundial. Nem problemas políticos de longo prazo, se medimos eficiência política com parâmetros técnicos como eleições regulares, posse dos eleitos, imprensa livre, Judiciário independente. Apesar da crise atual, temos fundamentos políticos superiores aos dos emergentes.

O primeiro dos grandes problemas é a educação, diretamente ligada à produtividade. A escolaridade média cresceu muito, mas o problema está na qualidade. E já há conhecimento acumulado sobre como melhorá-la drasticamente.

Outra questão vital é reduzir a elevada carga tributária. Nossa tributação equivale à de países de alta renda e alto nível de serviços públicos, mas sem a renda e o nível de serviços equivalentes. O próximo ponto é o custo de energia, equivalente ou superior ao de Japão e Alemanha, que, ao contrário do Brasil, não têm recursos energéticos. Seguem como grandes entraves a logística inadequada, a burocracia e os empecilhos aos negócios.

Para todos esses grandes problemas, já existem soluções, tecnologia e capital disponíveis. Bastam visão, disposição e competência para fazer. Na medida em que a situação fiscal se estabilize e um plano pró-crescimento seja implementado com vigor, foco, eficácia e credibilidade, o Brasil terá condições de sair da crise e iniciar período sustentável de crescimento com estabilidade.

O caminho é claro. Mas é preciso liderança política, clareza das prioridades, energia e foco para mobilizar a sociedade em torno das verdadeiras soluções dos problemas.

Fonte: Folha de S. Paulo, 27/9/2015

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