Para cima, para baixo

Cortinas de fumaça confundiram o eleitor brasileiro nos últimos meses. Uma das mais enganadoras é a de que range no mundo conflito intenso entre forças de “esquerda” e de “direita”. A corrida presidencial, com sua propalada “polarização”, teria sido exemplo de tal embate.

Com exceção da América Latina, ninguém hoje seriamente atribui substância a modelos alternativos de governo e sociedade baseados em noções caducas de esquerda ou direita. Tampouco à anteposição progressista/conservador, salvo quando aplicada a casos históricos concretos.

Na França, onde surgiram em meio às convulsões de 1789, esses termos deixaram de carregar o peso moral de uma cosmovisão. Ao sabor da ocasião, são abraçados no repertório autopreservacionista do funcionalismo público, na academia desconectada do mundo do fazer ou no discurso anti-imigração.

No Reino Unido ou na Alemanha, significam tão somente maior ou menor presença do Estado em certas políticas públicas – pontuais na maioria das vezes. Nada de reviravolta no regime de propriedade. Nenhum espaço ao coletivismo. Nada de métrica que reduza a experiência humana à oscilação pendular.

Ninguém atribui substância a modelos de governo baseados em noções caducas de esquerda ou direita

Muitas das reformas que levaram a China à rota da prosperidade adotadas por Deng Xiaoping em 1978 assemelham-se a pilares do “Milagre do Rio Han” –lançados pelo general Park Chung-Hee na decolagem sul-coreana ao desenvolvimento.

No Brasil, continuamos a falar de cinema ou diplomacia “de esquerda”. De política monetária ou segurança pública “de direita”. Nos anos Lula, teríamos assistido a uma política externa “de esquerda” e gestão macroeconômica “de direita”.

Ora, que pode haver “de esquerda” na aproximação com o Irã de Ahmadinejad ou a Líbia de Gaddafi? Que “de direita” existe em limites de responsabilidade fiscal ou noutras medidas que levem ao grau de investimento?

Que reconhecer de progressista no apoio a Havana quando nos últimos 12 meses 25 mil cubanos lançaram-se ao mar fugindo para os EUA? Thatcher e Gorbatchov – desobstruidores da esclerose que paralisava britânicos e soviéticos – eram líderes conservadores?

Que pontos comuns identificar na estratégia econômica “de esquerda” de Pequim ou Pyongyang? A conhecida repressão à liberdade de expressão ou outros direitos humanos pertence a que polo ideológico?

Diz-se que Dilma, vencedora nas urnas, teria apostado na “lógica do violino”.

Com acenos pré-eleitorais às camadas populares e pós-eleitorais ao mercado, pegou o governo com a esquerda, mas o tocará com a direita.

Diante dessa superficial dualidade – renitente em habitar o debate nacional -, uma lembrança para desagradar progressistas e conservadores. Há exatos 50 anos, no discurso que o alçaria como protagonista do quadro político dos EUA, Reagan afirmava não haver “esquerda ou direita”; apenas “para cima ou para baixo”.

Países com setor privado pujante e governo inteligente são “para cima”. Os que insistem no binário embate ideológico, quando muito, andam “para o lado”.

Fonte: Folha de S. Paulo, 31/10/2014

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