Para nos enganar, política escolhe roupagem liberal

Em sua coluna da semana passada aqui na “Folha”, Gregorio Duvivier declarava não conhecer nenhum “liberal-de-verdade” —desses que defendem menos intromissão do governo em todos os âmbitos da vida, inclusive na moral pessoal, nas artes, etc. Os políticos eleitos com plataforma liberal, afinal, têm mostrado outras cores ao longo do mandato.

Gregorio, pode respirar aliviado: os liberais de verdade estão entre nós e seus números não param de aumentar. Foi o que pude constatar em primeira mão na LibertyCon, convenção para o público liberal e libertário que ocorreu neste fim de semana em São Paulo. Um tipo de evento (comercialmente viável) impensável mesmo cinco anos atrás, com jovens de todo o Brasil.

Eu tive o prazer de mediar um debate sobre a filiação ideológica do liberalismo: direita, esquerda, terceira via? Em meio a discordâncias bastante acentuadas, a confiança mútua de que todo mundo ali é capaz de conviver com perspectivas diferentes. Saber escolher bem os próprios aliados é parte do jogo político neste mundo caído, mas é preciso sabedoria para não se deixar levar facilmente pelo primeiro canto das sereias políticas.

O mero discurso vale pouco. Lula, Doria e Bolsonaro já se disseram liberais, assim como no passado todo mundo se dizia de esquerda. Nada de novo. A diferença é que, agora, para nos enganar, a política escolhe a roupagem liberal. Só até a página 2? Sem dúvida. Mas melhor duas páginas de liberalismo do que de socialismo.

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Isso para não falar nas iniciativas políticas mais claramente liberais que terão seu grande teste em 2018: partidos como Novo e Livres, que apostam num eleitorado identificado com essa bandeira. Haverá liberais para todos os gostos.

Ainda que paute alguns discursos, o liberalismo puro-sangue está longe de constituir uma força pronta para vencer eleições majoritárias. E num país que não é afeito a doutrinas em estado puro, sem alguma mistura com seu contrário, isso não deve mudar tão cedo.

Por isso acredito que, além de iniciativas que tragam o liberalismo como bandeira central, o Brasil se beneficiará se indivíduos e temperamentos liberais (sem “ismo”) se espalharem por todo o espectro político. O baixo teor ideológico segue sendo uma de nossas forças: o brasileiro quer agir com mais liberdade sem abrir mão de garantias sociais e do reforço na segurança pública. É gregário por natureza, tolerante e acredita no valor do próprio esforço para chegar lá. Eu aposto que existe uma plataforma de sucesso aí, que incorpora muitos valores liberais, mesmo que não se apresente como “liberalismo de verdade”.

As polêmicas das últimas semanas levaram ao paroxismo a guerra política que ameaça tomar conta de nossa cultura. Cada vez mais, cada passo, cada palavra precisa ser milimetricamente calculada para não enraivecer uma horda de ofendidos e de cruzados em guerra santa.

Para além da direita e da esquerda, vivemos uma degradação do debate público enquanto tal, que se move para uma direção antiliberal. Nem tudo gira em torno do Estado. Nem a melhor proposta política pode salvar uma cultura corrompida e na qual a confiança deu lugar ao medo e ao ódio. Além da política econômica, nesse campo cultural todos os lados do espectro —Gregorio inclusive— têm muito a aprender com os liberais. De verdade.

Fonte: “Folha de S. Paulo”, 17/10/2017.

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