Entre os principais indutores do crescimento global dos primeiros anos deste século esteve o sistema financeiro desregulado. É isso mesmo, o sistema.

São bem conhecidos hoje os descaminhos do modelo financeiro que desabou. Excesso de risco mal avaliado, operações imprudentes, alavancagens exageradas – tudo permitindo, por exemplo, que um título de crédito (muitas vezes de crédito duvidoso) fosse vendido várias vezes, em diferentes fundos de investimento.

Mas é preciso ver as coisas por todos os lados. Além ou apesar dessas “loucuras”, o sistema captou e espalhou capital abundante e barato pelo mundo todo. Considerem apenas um número. Em 2007, as companhias privadas brasileiras recolheram nada menos que R$167 bilhões com o lançamento de ações (principalmente) e mais debêntures, notas promissórias etc. Sabem quanto havia sido levantado, nas mesmas modalidades, em 2003, início do mais recente ciclo de expansão mundial? Apenas R$13 bilhões.

Boa parte dessa montanha de capital veio do exterior, trazida pelas operações dos grandes bancos de investimentos, esses que acabaram. Esse dinheiro gerou aqui negócios e empregos, muitos empregos.

Primeira conclusão: é preciso restabelecer não aquele mesmo sistema financeiro, mas um com a capacidade e a liberdade necessárias para restaurar a circulação de capitais e empréstimos. Falando francamente: se sair disso um sistema financeiro super-regulado e supercontrolado, pode-se ter um modelo sem crises, mas também sem financiamentos.

Outro fator de crescimento global foi a China, a que mais conhecemos, a exportadora de produtos de consumo baratos, e a outra, a grande, a insaciável importadora de commodities, matérias-primas e alimentos. Esta última função, digamos, favoreceu especialmente o Brasil.

Mas esse papel crucial da China dependeu dos fregueses americanos. Basta um número para mostrar o peso do consumo americano na economia global. Entre 2003 e 2008, os EUA acumularam um déficit comercial de US$4,5 trilhões. Ou seja, todos os outros países venderam seus excedentes de produção para o consumidor americano.

Informações mais recentes dizem que o governo chinês vai ampliar o programa de aumento de gastos e do consumo internos, o que é boa notícia para todo mundo que vende para lá. Dá um bom estímulo à atividade econômica global. Mas está claro que isso e mais os programas de estímulo dos outros países não substituem os 4,5 trilhões dos americanos.

Outra conclusão: o mundo não sai dessa sem a recuperação da capacidade do consumo dos EUA, o que significa que tudo depende da restauração do crédito na economia americana. Como não apenas os consumidores, mas também as empresas e o governo estão excessivamente endividados, está claro que o país não poderá voltar tão cedo ao ritmo fortíssimo de absorção dos excedentes do resto do mundo.

Vai daí que já estaremos no lucro quando a economia mundial voltar a crescer só um pouco. E outra conclusão: é preciso que países que poupam demais e produzem para a exportação, como a China e os demais asiáticos, passem a gastar mais internamente – a consumir mais e guardar menos dinheiro, enquanto os americanos fazem o contrário.

Finalmente, outro fator de crescimento foi a expansão do comércio mundial. Todos os países tiveram a oportunidade de vender seus melhores produtos no mercado global. Muitos o fizeram e ganharam bom dinheiro, como o Brasil, que, graças ao crescimento das exportações, pôde elevar suas reservas internacionais de US$20 bilhões em 2001/02 para os US$200 bilhões de hoje.

Resumo da ópera: parece hoje que o mundo recente foi apenas uma imensa bolha especulativa para enriquecer banqueiros. Certamente teve isso, mas também investimentos em fábricas, usinas, fazendas, campos de petróleo, minas, tecnologia da informação, com a criação de milhões de empregos, que tiraram milhões de pessoas da pobreza. Como eliminar os efeitos da bolha e, ao mesmo tempo, restabelecer as condições do crescimento global – eis a difícil tarefa que, aliás, também é global.

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