O paradoxo argentino

O desastre econômico vivenciado pela Argentina nos últimos anos e o “descolamento” observado entre as realidades daquele país e do Brasil fizeram com que a temática argentina perdesse espaço nas páginas de jornal de nosso país. Apesar disso, continuar a acompanhar o que se passa por lá é importante, por duas razões. Em primeiro lugar, o país continua sendo nosso principal vizinho e um importante parceiro comercial. E, em segundo, a boa análise é a que vai além da visão de curto prazo e consegue captar as possíveis tendências futuras. E, nesse sentido, há possibilidades para as quais convém estar atento.

A Argentina possui uma riqueza de energia fabulosa

A maioria dos analistas econômicos brasileiros não consegue ocultar um compreensível sentimento de tédio quando ouve falar das estripulias cometidas pelos “hermanos”. E, de fato, o que um analista caracterizou no Brasil como “pequenos assassinatos diários” contra a lógica econômica adquire no Rio da Prata proporções de um verdadeiro massacre em massa, tal é a quantidade de atrocidades perpetradas contra a ordem econômica nos últimos dez anos.

Não obstante, há que estar atento para três elementos: 1) a Argentina possui uma riqueza de energia fabulosa, nas instalações de Vaca Muerta, que é proporcionalmente para ela mais importante do que o pré-sal para o Brasil e que, tão logo haja um mínimo de racionalidade econômica no processo de tomada de decisões, deveria propiciar um boom do investimento direto; 2) considerando a máxima do mercado de que “quando há sangue nas ruas, está na hora de comprar”, mesmo que não tenha sido esse o caso – dado que a paz social foi preservada -, o fato é que poucas situações se parecem mais à de um mercado “no chão” como a situação dos preços de títulos e bolsa na Argentina recente, o que oferece grandes possibilidades de ganho para quem tiver o sangue frio de saber comprar ativos no momento certo; e 3) apesar de certo êxodo de alguns quadros técnicos, o país conta com um time de profissionais de primeira qualidade em condições de compor boas equipes técnicas de um novo governo, o que o diferencia de casos como o da Venezuela, onde esses quadros se contavam em menor número e houve grande evasão de cérebros para os EUA.

A situação argentina gera um paradoxo, com potencial para reproduzir em escala mais intensa aquilo que se verificou no Brasil na proximidade das eleições, quando as pesquisas eleitorais geravam pequenos ciclos de euforia nas bolsas.

O paradoxo é que um governo que passou os últimos anos brigando com as chamadas “forças de mercado” pode assistir a uma onda favorável do mercado em razão do que poderá vir depois. A perspectiva é hoje ofuscada pelo “duplo default” recente do país e a barafunda jurídica em que se transformou o pagamento do serviço da dívida renegociada anos atrás; pela consciência de que um governo isolado ainda pode enfrentar muitos problemas antes de acabar; e pela dúvida que persiste acerca de se, diante de uma oposição fragmentada, um candidato oficial seria derrotado com certeza ou não.

Contudo, isso tenderia a mudar à medida que o final do governo se aproximar e a perspectiva de ter um governo “market friendly” – com Sérgio Massa ou, o que parece menos provável, com Mauricio Macri – se tornar mais palpável.

Nesse caso, a corrida por estar bem posicionado quando começar o “rally” de procura de ativos se tornaria mais evidente. No começo de 2002, quando a Argentina estava mergulhada no caos, fui chamado para dar uma palestra a uma grande empresa, que desejava saber se fazia sentido investir na Argentina. Eu respondi que não naquele momento, mas que ela deveria se posicionar para comprar ativos muito baratos meses depois, tão logo a situação se acalmasse um pouco, porque o país voltaria a crescer, o que de fato ocorreu nos anos seguintes. Agora, já soube de investidores que dizem que, “tão logo eu tiver certeza de que verei o atual governo pelas costas, quero ser o primeiro a comprar”. É a vida como ela é.

Fonte: O Estado de S.Paulo, 05/11/2014.

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