Paraguai na Berlinda

Pergunto o seguinte: o impeachment de Fernando Lugo feriu a constituição do Paraguai? O ato do senado foi ilegal? Os militares derrubaram o presidente? Houve alguma conspiração imperialista internacional contra a ordem democrática? Dado que a resposta a essas indagações é negativa, torna-se icompreensível a reação  indignada dos membros do Mercosul.

Ainda que a decisão quase unânime do senado tenha sido injusta ou politiqueira, cabe ao povo paraguaio fazer esse tipo de avaliação, e não aos governos estrangeiros. E o mais cômico nesse contexto é o fato de haver a idéia de substituir, no Mercosul, o Paraguai pela Venezuela, cuja pureza democrática é ostensivamente agredida.

Por outro lado, tenho minhas dúvidas se semelhante suscetibilidade da Argentina e do Brasil também se manifestaria no caso de o presidente impedido não ser da simpatia dos dirigentes desses dois vizinhos do Paraguai. Essa demonstração de imaturidade diplomática no manuseio do conceito de soliedariedade internacional, compromete a tranquilidade do relacionamento entre os países sul-americanos.

Em pleno segundo milênio, é inconcebível permanecer indiferente ante o obscurantismo que subsiste em várias partes do globo.

Conforme já mencionei em artigos anteriores, o mundo caminha em direção a uma nova realidade onde a globalização não se restringirá apenas à esfera econômica, estendendo-se também ao âmbito dos assuntos políticos, sociais, científicos e culturais de cada Nação. Tal tendência não repete as modalidades clássicas do que poderíamos chamar de “arcaica globalização política”, isto é, as guerras, a expansão colonialista e o imperialismo.

Vislumbro, isto sim, um processo pelo qual a comunidade mundial passe a reagir ante o fato de que alguns países mantêm hábitos delinqüentes em termos de direitos humanos, democracia, ordem jurídica, equidade social, tolerância religiosa e racial, política externa e conservação do meio ambiente. Mas esse não é o caso dos recentes acontecimentos no Paraguai.

Em pleno segundo milênio, é inconcebível permanecer indiferente ante o obscurantismo que subsiste em várias partes do globo. Atos com um grau de barbarismo equivalente aos da Inquisição, do extermínio dos índios no continente americano, da escravidão e do Holocausto ainda são praticados e, muitas vezes, interpretados como uma curiosa excentricidade que está ocorrendo “em algum lugar do mundo”. A comunidade internacional tende cada vez mais a agir contra tais comportamentos. Porém, encaminhar a política externa de um país para combater algo como o impedimento do presidente do Paraguai constitui uma decisão fútil.

Evidentemente, inúmeros perigos envolvem esse novo gênero de globalização aqui citado. O maior deles é a probabilidade de ser aplicado apenas em relação aos países mais pobres e de menor poderio militar. Quem terá coragem de dar um puxão de orelha na China quando seu governo usar tanques contra jovens desarmados? Quem se atreverá a inspecionar a incidência de discriminação ao negro nos Estados Unidos? Quem ousará ralhar com a Alemanha pelo fato de os imigrantes serem agredidos?

Outro risco provém das conseqüências indesejáveis de uma reinterpretação do conceito de soberania nacional. Facilmente esse novo padrão de soberania poderia ser usado como pretexto para atos que atentem contra os interesses de determinadas nações, ameaçando até mesmo a sua integridade territorial. E, por outro lado, iniciativas destorcidas como a referente ao Paraguai podem ocorrer.

Em face de tais riscos, seria ingenuidade acreditar na implementação veloz da internacionalização de assuntos político-sociais domésticos. Mas existem sinais de que não será necessário esperar o próximo milênio para vê-la em vigência.

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3 comments

  1. Gilberto Naldi

    Nao se pode esperar nada de bom da diplomacia (?) petista. Os exemplos da história reçentíssima são constrangedores! As ações atabalhoadas estão sempre envoltas na névoa ideológico partidária .Acho que a Argentina e Brasil estão facilitando o surgimento de uma Base Norte Americana em território paraguaio !

  2. Carlos U. Pozzobon

    Quando um governo latino-americano não se afina com os princípios bolivarianos, qualquer golpe é bem vindo. Entretanto, quando faz parte da patota, qualquer ação legal contra seu atavismo antidemocrático se constitui em golpe. A sociopatia vem justamente desta dupla natureza: reprovar nos outros aquilo que lhes é intrínseco e natural; recriminar aquilo que para eles é uma ação natural, requerida pelo direito de… não precisar do direito.

  3. Marcelo de Souza

    Faltar democracia também falta muito no Brasil ne? Uma verdadeira farsa a idéia de que existe mais democracia em países como Colômbia e o Paraguai Pós golpe hoje do que na Venezuela, Equador e Bolívia. Muito pelo contrário

    Mesmo antes de Lugo, o Paraguai é um país marcado por golpes e a Venezuela é uma democracia desde os anos 50!!A fragilidade democrática e instituicional do Paraguai facilitou a quebra da democracia. Já estive duas vezes em assuncion e falo com propriedade, trata-se de um país complexo, de diferentes maneiras colonizado pelo Brasil, pela usina de itaipu, pelo papel que cumpre ciudad del leste como taxfree de muamba para SP, pela posse de mais da metade das terras, enfim tem conflitos no campo, uma oligarquia no senso clássico e uma grande apatia em Assuncion.

    Acompanhem com seriedadeantes de lançar bravatas anti-bolivarianas, só porque hoje se faz política de estado, sul-sul, Brasil tam voz para tudoo e não a simples submissão a Washington, Alca etc.dd