Dois ex-alunos de uma mesma escola de administração americana e que nos seus países cursaram o mesmo tipo de faculdade e são empresários no mesmo setor (varejo com vendas somente no mercado interno), trocaram idéias recentemente sobre os ambientes políticos e econômicos em que estão imersos. Um é brasileiro; o outro é chinês:

Pergunta: Teu país tem tradição empreendedora?
Resposta: Sim. O espírito empreendedor é alto, especialmente em algumas partes do país.

P: Quão altos são os impostos, comparados com o mundo?
R: Acho que os impostos são mais altos, se tudo é pago de acordo com a lei fiscal. Existem muitos diferentes tipos de impostos, dependendo do setor. Os impostos para pessoas físicas são também altos.

P: A regulamentação empresarial é alta?
R: Pergunta difícil de responder. A regulamentação empresarial não é tão elaborada como em paises desenvolvidos.

P: Teu povo gosta de empresários e de empresas?
R: Na verdade não. Acho que é o mesmo que em outros países.

P: Teu país é um paraíso para empresários?
R: Não. É muito difícil para negócios. Muito complexo. O sistema não é amigável.

P: O lucro é pecado para teu povo?
R: A percepção de lucros altos é vista de forma muito negativa.

P: As margens de lucro são altas em geral?
R: Depende da indústria, mas em geral as margens são menores que no mundo desenvolvido.

P: A burocracia estatal e os políticos gostam de empresários?
R: Não. Política é o assunto número um. Se a empresa é percebida como contribuindo para a estabilidade e sucesso do país, a percepção é boa. Caso contrário, não.

P: Existe muita pobreza nos nossos países. No teu caso, achas que a renda dos pobres está melhorando?
R: A minha percepção é que sim.

P: Você concorda com o relatório do Banco Mundial sobre teu país, com relação ao ambiente para negócios?
R: Acho o relatório bastante bom e realista.

Quem perguntou foi o brasileiro. Quem respondeu foi o chinês. Mas com relação à estas perguntas, valeriam também as respostas se fosse ao contrário. Esta conversa meio sem pé nem cabeça talvez mostre um mundo cada vez mais plano, apesar da China estar saindo com velocidade impressionante de uma organização social onde não existia setor privado nem instituições de mercado. O alerta é real: “Só maluco acha que entende a China”.

Mas existem dados muito discriminantes. A China tem menos da metade da nossa carga fiscal (Impostos/PIB) e mais do dobro do nosso Investimento/PIB. A dívida pública/PIB é menos da metade da nossa, com equilíbrio fiscal. A inflação é de 1,5% aa. A China não também não se fechou para o mundo. Exporta (fob) 40% do seu PIB e importa (fob) 31%. Nós exportamos 14% e importamos 9% do PIB. Somos ainda muito fechados.

Num ambiente como a China os empresários mandam ver. Empreendedores brotam em todos os cantos. Quando empresário tem comprador, a politicagem, corrupção, poluição, burocracia, falta de infra-estrutura e gargalos acabam sendo empurrados com a barriga. E o governo corre atrás. O resultado é que o PIB chinês cresce três vezes mais rápido do que o do Brasil. Nesta batida, a renda per capita dos chineses dobrará a cada 8 anos. A nossa a cada 30 anos

As restrições à China são com relação à falta de liberdades civis e direitos políticos. De fato, a Freedom House (relatório 2006) faz uma péssima avaliação da China (notas 7 nas duas dimensões, a pior possível). Mas a falta de liberdade não é precondição para o crescimento. É barreira.  Outra questão é a ausência de proteção trabalhista e previdenciária. Mas o efeito túnel para os chineses é muito visível e a distribuição de renda melhor do que aqui. E a poupança das famílias chinesas está em grande parte investida no exterior, em reservas internacionais, hoje inacreditáveis 45% do PIB. E a idéia que a China é um caso bem sucedido de projeto nacional também é visto com ceticismo por quem lá milita. “O governo vai a reboque, investindo em energia e infraestrutura. Mas atrapalhando com as mesmas imperfeições políticas que temos aqui, inclusive mau uso dos impostos, regulamentação grotesca e corrupção”. 

Outra indagação do brasileiro ao colega chinês foi sobre a razão das famílias chinesas pouparem tanto. O chinês respondeu que “a família chinesa tem uma muito forte preocupação em enriquecer e poupar para o futuro”. O governo chinês não faz poupança compulsória para aposentadorias porque as famílias poupam muito. As famílias poupam muito porque o governo arranca poucos impostos deles e não faz previdência compulsória pública.

Vamos ter que nos adaptar para enfrentar a China. Não existe modelo a copiar, mas podemos copiar o mesmo norte dos fundamentos fiscais, fazendo inclusive a vital reforma previdenciária. Mas é na área de uso de mão-de-obra intensiva que as nossas desvantagens comparativas são enormes. Teremos que nos adaptar à novos usos de mão-de-obra. Saúde, educação, manutenção dos nossos ativos fixos, transportes e logística são serviços que irão precisar de muita mão-de-obra – que nunca irá ter a competição da China. Mas precisaremos destravar os imbróglios reguladores das legislações trabalhista e educacional.

Entretanto, apesar do “senso comum” das propostas acima, elas não estão na agenda política. Pior, retrocedemos com  políticas industriais pontuais, re-introduzidas para proteger algumas indústrias da competição chinesa ou das injustiças do câmbio “valorizado”. É surpreendente ver nossos dirigentes econômicos sendo capturados pelos mesmos rent seekers.  Por que o estamento político tem comportamento tão bizarro?

Na busca de sanidade, nos ajudam as hipóteses das escolas da escolha pública e institucional, que nos alertam sobre nossas cândidas expectativas nas promessas neoclássicas e as dos sistemas representativos. Temos o trabalho pioneiro do prof. Jorge Vianna Monteiro, com seus livros (sendo o mais recente “Como Funciona o Governo” – FGV Editora – 2007) e com sua carta quinzenal Estratégia Macroeconômica, cuja última edição é um bálsamo para nossas angústias. E também podem acalmar as angustias do empresário chinês, pois são idéias que também valem para a China.

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