A Parceria Transpacífico (TPP) é uma oportunidade para o Brasil

*com Diego Bonomo

O Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) – publicou a “Agenda de Política Comercial” do presidente Trump para 2017. O teor do texto indica que os americanos podem retomar as práticas do período que antecedeu a globalização dos anos 1990, que o famoso economista Jagdish Bhagwati denominou de “unilateralismo agressivo”. Grosso modo, os EUA decidiam, de forma soberana e não recíproca, quais países estariam praticando “comércio desleal” e exigiam compensações sob a ameaça de sanções unilaterais.

O paralelismo com o momento atual é inevitável. Nos anos 1970 e 1980, o motivo da proteção americana era a concorrência alegadamente desleal do Japão e dos tigres asiáticos. Hoje são a China, o México e a Parceria Transpacífico (TPP).

Embora potencialmente prejudicial para a economia global, o novo protecionismo americano pode criar oportunidades para o Brasil. Mas, para capturar seus benefícios, temos de nos mexer — e rápido!

Já perdemos a chance de criar a Alca, nosso primeiro “mega-acordo”, e atrasamos, de forma exagerada, as negociações com os europeus. De 2008 para cá, ficamos órfãos da Rodada Doha e deixamos de participar de vários acordos plurilaterais que se cristalizaram desde então, a maioria sob a liderança dos Estados Unidos e da União Europeia.

Com a nova posição americana e o “Brexit”, abre-se um vácuo de poder e liderança no mundo. A pergunta é: vamos apenas observar ou assumiremos um papel protagônico?

Os países que cercam o Pacífico — da Ásia, Oceania e América Latina — parecem desnorteados, mas não ficarão paralisados. Um exemplo é a primeira reunião ministerial da TPP após o desligamento dos EUA, em Viña del Mar, Chile, nos dias 14 e 15. China e Coreia do Sul já confirmaram presença como observadores. Por isso, Brasil e Argentina não podem perder essa oportunidade para entender como ficará a TPP e se posicionar. O México, que poderia tomar as rédeas desse processo, encontra-se paralisado pela “renegociação” do Nafta.

O fato é que, ao contrário do que parece ocorrer nos EUA e na UE, a Ásia e as economias mais dinâmicas da América Latina continuam querendo se integrar cada vez mais.

Além dos 12 países da TPP que vão se reunir no Chile, há a integração potencial dos 21 países da Apec (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico) e dos 16 do RCEP, megabloco asiático oficialmente liderado pela Asean (10 países do Sudeste Asiático), porém extraoficialmente pela China. Ou seja, não faltam tabuleiros para o Brasil jogar nessa região, que abriga 60% da população do planeta.

Nesse contexto, o governo brasileiro deveria participar ativamente da reunião da TPP no Chile, entender a nova dinâmica do comércio global e avançar o mais rápido possível na estratégia de novos acordos.

A Ásia é vista como a grande janela de oportunidade de integração para o agronegócio, respondendo por quase metade das exportações do setor. Barreiras comerciais e burocráticas impedem o crescimento, a diversificação e a adição de valor das nossas exportações agroindustriais para aquele continente.

Já a indústria vê oportunidades mais imediatas na Europa como um todo, EUA, Canadá e Aliança do Pacífico (México, Colômbia, Peru e Chile). Contudo, é importante o setor industrial olhar a Ásia mais como fonte de ganhos do que de perdas comerciais. Japão e Índia são dois exemplos e há oportunidades comerciais e de atração de investimento pouco exploradas nos demais membros da TPP – Austrália, Cingapura, Nova Zelândia, Malásia e Vietnã.

A agricultura é parte fundamental e dinâmica da indústria brasileira. O interesse de ampliar o comércio e os investimentos é convergente nesses dois setores, assim como o pleito para que o país aproveite o vácuo de liderança nas políticas comerciais e assuma presença e protagonismo em todas as frentes possíveis de negociação.

Como diz a expressão latina, tempus fugit. A hora é de ação.

Fonte: “Folha de S. Paulo”, 4 de março de 2017.

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