A passionalidade e a superficialidade de boa parte das discussões político-econômicas no Brasil são naturalmente acentuadas na disputa eleitoral. Definido o resultado, é importante controlar a paixão e trazer o debate o mais perto possível da razão. Quanto mais racional e factual ele for, melhor para todos.

Isso não significa a busca do consenso. O consenso de certa maneira é uma ilusão. Um político britânico, questionado há muitos anos se existia consenso em seu governo, respondeu que não –havia acordo ou então prevalecia a visão da maioria, que é a essência da democracia. Como no Brasil, apesar das críticas.

Enfrentamos desafios importantes. Saímos de um ciclo de crescimento acelerado ocorrido de 2003 a 2010, impulsionado pela estabilização econômica, pela disponibilidade de mão de obra, e pelo aumento da previsibilidade, que gerou aumento do crédito e do investimento.

Que essa grande mobilização do processo eleitoral resulte positiva e produtiva, com maior participação no debate público e no processo democrático

Vivemos hoje um novo ciclo, com contenção de investimentos e com a demanda internacional reduzida, o que gera novos desafios.

Há, porém, um espaço enorme para acelerar o crescimento baseado nos investimentos, especialmente na infraestrutura, dada a demanda não atendida por transporte, energia e serviços que a gigantesca classe média incorporada ao mercado de consumo propicia.

Existem recursos disponíveis no mundo para isso devido à falta de boas oportunidades para investimentos que resulta da baixa demanda global. Temos condições de aproveitar essa janela de oportunidade com alternativas atraentes de investimento. Para atraí-los, serão necessários direcionamento claro, previsibilidade nos fundamentos econômicos e nas regras do jogo além de inflação na meta e dívida pública cadente.

Há vantagens em não haver consenso. Oposição é fundamental na democracia para promover um debate racional que vise soluções benéficas a todos. A polarização e a mobilização em torno dos candidatos e das propostas devem ser agora canalizadas para gerar salto de qualidade do debate público.

Os que defendem maior participação estatal na economia só obscurecem o debate quando acusam os de visão diferente de quererem destruir o governo para por o mercado no lugar. O mesmo ocorre quando os que defendem maior competição e liberdade para empreender acusam os defensores de maior ação governamental de planejarem a destruição do setor privado.

O Brasil já cresceu e evoluiu bastante. Que essa grande mobilização do processo eleitoral resulte positiva e produtiva, com maior participação no debate público e no processo democrático.

Fonte: Folha de S.Paulo, 26/10/2014.

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