A impressão que se tem é que vai se consolidando uma lenta recuperação da economia brasileira, ou então, uma saída do “fundo do poço”. Isto pode ser observado pelos movimentos dos mercados de ações, em boa alta, em função da “precificação” da recuperação da economia, com mais indicadores favoráveis e uma boa perspectiva para o segundo semestre. Mesmo os indicadores negativos divulgados nos últimos dias são um sinal de que a crise vai ficando para trás, na sua fase mais aguda entre o quarto trimestre do ano passado e o primeiro deste ano.

Por outro lado, os agentes, mesmo saudando este bom rally de alta das bolsas, com o Ibovespa já tendo subido cerca de 70% desde a fase mais aguda da crise (dia 29/10/2008), até quinta-feira passada (dia 8), precisam manter uma certa cautela, dado que esta recuperação tende a ser lenta e ainda errática, sujeita a alguma volatilidade nos mercados.

Na semana passada dois fatos marcaram este processo de recuperação: um foi a divulgação do resultado do teste de “stress”, depois de três meses de auditoria sobre a capacidade de resistência de 19 instituições financeiras norte-americanas; outro foi a ata do Copom de abril, mostrando que a demanda e a inflação fraca abrem caminho para a continuidade do ciclo de cortes na taxa básica de juros.

Sobre o teste de “stress”, a impressão que se tem é que as notícias foram sendo divulgadas aos poucos, visando diluir o impacto negativo de se divulgar tudo de uma só vez. De uma certa forma, alguns resultados foram sendo divulgados, num intuito para testar a reação dos agentes. Como eles foram absorvendo bem os fatos e a divulgação na quinta-feira (dia 7) acabou como um anti-clímax, sem grandes tensões. Foram submetidos ao teste 19 instituições financeiras, correspondentes a 66% dos ativos bancários e 50% do crédito dos EUA. O objetivo foi mensurar o quanto os bancos possuem de capacidade de resistir a um momento mais agudo de crise, com o PIB do País mergulhando 3,3%, e quanto de capital adicional seria necessário.

Ao fim, cerca de 10 dos bancos auditados precisarão de aporte de capitais, tanto na emissão de ações, como no socorro ao Tesouro norte-americano. O total, a ser mobilizado, chega a US$ 75 bilhões. O Bank of America deverá precisar de US$ 33,9 bilhões, boa parte talvez em função da incorporação do Merrill Lynch, o Wells Fargo de US$ 13,7 bilhões, com a emissão de novas ações no total de US$ 6 bilhões, o Citigroup de US$ 5,5 bilhões, além de alguns bancos regionais. Outros bancos, como o US Bancorp, o Metlife, Goldman Sachs, JP Morgan, Capital One, Regional Financial e o American Express não precisarão de novos aportes (ver tabela ao fim).

A idéia é que estes bancos, que precisam de novos aportes, terão um prazo até dia 8 de junho para apresentar um plano de saneamento viável. Passada esta fase, eles receberão recursos e até novembro terão que apresentar resultados encorajadores de que retornaram ao mercado de crédito, irrigando e dinamizando o fluxo monetário e de bens da economia norte-americana.

O secretário Timothy Geithner, um dos mentores, acha que estes testes devem dar um quadro reconfortante ao sistema financeiro nos EUA, mostrando que os bancos necessitam de mais recursos, mas não estão à “beira da falência”.

O problema é que em paralelo a estes resultados, a oferta de crédito registrou a maior queda em março, mostrando que os bancos ainda não voltaram a emprestar, irrigando o sistema econômico. Este, aliás, é o ponto central da crise. O crédito “travou” e será necessário um considerável ganho de credibilidade e uma consistente depuração nos balanços dos bancos para que ele volte a circular em bom volume. Lembremos que o que move a economia norte-americana é o consumo das famílias, equivalente a 70% do PIB. Uma boa notícia nisto tudo, é que este, no forte recuo de 6,1% do PIB no primeiro trimestre deste ano, voltou a crescer depois de muitos trimestres. O crescimento foi de 2,2%, o que pode ser um bom sinal para este crítico ano de 2009. Nossas estimativas para o PIB norte-americano neste ano indicam uma retração de 3%, que deve começar a se reverter neste segundo trimestre.

Sobre a ata do Copom, embora cheia de enigmas a serem decifrados, dado o “lugar comum” de muitas das suas argumentações, a leitura que se tem indica a continuidade do ciclo de quedas da taxa de juros. Com isto, cresce a possibilidade de um novo corte de 1 ponto percentual na próxima reunião em junho, diante do fraco desempenho da economia e da inflação sob controle. Sendo assim, para depois poderia haver um “freio de arrumação”, com a autoridade monetária no aguardo do desenrolar das últimas decisões, na expectativa de um canal de transmissão fazendo efeito ao fim deste ano.

Em poucas palavras, a principal mensagem da ata foi de que o Bacen não está convencido da recuperação consistente da economia global e doméstica, o que abre espaço para a continuidade da queda da Selic. Um “nó” neste processo, no entanto, passaria pela correção das regras da caderneta de poupança, que criam distorção em um ambiente de juros baixos.

Segundo a ata, “o Comitê entende que a continuidade do processo de flexibilização monetária torna premente a atualização de aspectos resultantes do longo período de inflação elevada, que subsistem no arcabouço institucional do sistema financeiro nacional”. O que significa isto? Significa, que a equipe econômica está avaliando a eventual mudança na rentabilidade da caderneta de poupança para fazer face a um cenário de juros mais baixos. Neste caso, pela simplicidade da decisão, não passando pelo Congresso, o Bacen pode alterar a rentabilidade da TR, não mexendo com a incidência do Imposto de Renda, em função do “princípio de anualidade”, o que significaria sua aplicação apenas no ano que vem, além da necessidade desta medida ter que passar pelo crivo do Congresso.

Enfim, os acontecimentos recentes indicam que o pior da crise já foi superado, o Brasil vem passando em todos os testes e já dá para enxergar alguma luz ao fim deste ano. Turbulências no meio do caminho ainda serão inevitáveis, mas devendo perder cada vez mais força. Assim esperamos.

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