Pátria amada

Já houve um tempo em que era praticamente proibido importar vinhos no Brasil. A produção local era soberana. Depois, começaram a aparecer uns vinhos argentinos muito ruins, de quinta categoria lá, mas tratados aqui como finos. A produção local continuou sem competição.

Não se notou qualquer melhora do vinho nacional nesse longo período de proteção. Ao contrário, o produto fabricado aqui, com uvas locais, só começou a dar sinais de melhora quando a importação se abriu e o brasileiro começou a conhecer o que era um bom vinho. O consumo foi crescendo, por essa razão, o aumento da oferta, mas também seguindo padrões globais de comportamento, nos quais o vinho ganhou até um aspecto cultural. Assim, nos últimos anos, aumentou tudo, consumo, importação e produção interna.

Mas isso não está bom, na opinião de associações de produtores locais. Pediram e o governo abriu uma investigação para avaliar a aplicação de salvaguardas – cotas ou mais tarifas de importação sobre o vinho (a atual tarifa é de 27%, já muito alta, mas não se aplica aos países do Mercosul, Argentina e Uruguai, e ao Chile, que tem acordo especial).

O caso ainda está em estudos no Ministério do Desenvolvimento, mas o discurso da presidente Dilma aos produtores, feito no Rio Grande do Sul, deixou todos eles muito animados.

Hoje, o vinho nacional alcança níveis razoáveis de qualidade. Mas perde na relação custo/benefício. Com o preço que se paga por um bom nacional compra-se um argentino ou chileno bem superior. E esses estrangeiros já chegam aqui muito mais caros do que em seus países de origem. O pessoal das vinícolas chilenas se espanta quando sabe do preço cobrado pelos seus produtos no Brasil.

Mais ou menos na mesma época em que não se podia importar bons vinhos, era proibido importar carros, bons ou ruins. Esse mercado era totalmente fechado e protegido.

Quando se abriu, no início dos anos 90, verificamos que décadas sem competição haviam deixado as famosas carroças. A indústria só começou a avançar quando submetida à concorrência externa.

De 2000 para cá, a estabilização da economia, a consequente volta do crédito e a expansão global puxaram o crescimento do país. O mercado chegou a 3,5 milhões de carros, o quarto ou quinto do mundo.

Mas também não está bom para os produtores locais, todos multinacionais. O setor pediu e já conseguiu várias formas de proteção contra os carros importados.

O governo, conforme têm dito a presidente e os ministros Guido Mantega e Fernando Pimentel, não vai fazer o papel de bobo e deixar que os estrangeiros venham aqui conquistar nosso mercado.

Há situações em que a produção local pode e deve ser protegida. A legislação da Organização Mundial do Comércio, à qual o Brasil está submetido, prevê esses casos. Por exemplo: exportações predatórias, a preços artificialmente baixos, podem ser barradas. Também admite dar um tempo de proteção até que uma determinada indústria local nasça e/ou ganhe mais musculatura.

Mas, no geral, o comércio internacional e a abertura dos mercados constituem fatores de desenvolvimento global e nacional. Isso mesmo, importação é bom. Os países ganham com as importações. Ganha a produção local, com a aquisição de tecnologias e insumos modernos, e ganha o consumidor, que tem à sua disposição uma maior variedade de produtos de qualidade.

Nenhum país precisa produzir tudo que consome. E um país do tamanho do Brasil nunca será essencialmente importador. É mais negócio produzir neste mercado tão grande. Hoje, por exemplo, apenas 18% das compras externas são bens de consumo.

Assim, o nacionalismo não passa de um falso discurso. Não chegaram a tanto, mas estão quase nos dizendo que importar é um ato de lesa-pátria. E estão nos vendendo gato por lebre. Dizem que as medidas protecionistas se enquadram no programa de criar condições de inovação e ganhos de eficiência para a indústria nacional. É falso.

O que estão fazendo, simplesmente, é exportar o custo Brasil. Sim, está difícil a vida da indústria no Brasil. Mas não é por causa do ataque dos estrangeiros. Está difícil porque é caro produzir no Brasil. É caro fazer negócios no Brasil, inclusive no comércio de importados.

O dólar é parte do problema, mas hoje certamente está longe de ser a parte principal. Reparem: a moeda chilena também está valorizada e o vinho deles, melhor, sai mais barato que o brasileiro; idem para a moeda mexicana, e o carro deles também sai melhor e mais barato.

Proibir, limitar e taxar os importados não trará qualquer ganho de eficiência nem de escala à produção local. Apenas tornará todos os produtos, nacionais e importados, mais caros.

Resumo da ópera: como é difícil ter um plano de médio prazo para a redução do custo Brasil e a eliminação dos entraves à eficiência nacional; e como é difícil justificar tecnicamente as medidas protecionistas, parte-se para esse falso e perigoso patriotismo, que é o ataque ao estrangeiro.

Como o governo e produtores argentinos fazem com a gente.

Fonte: O Globo, 22/03/2012

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1 comment

  1. Gilberto Naldi

    Ao contrario dos países civilizados, o Brasil não respeita seus cidadão consumidores. O consumidor é aquele que move a roda da economia, do progresso e do desenvolvimento. Aqui, não! Ele nada merece e nada representa. No Brasil, paga-se muito por muito pouco em qualidade e satisfação! Quem põe preços nos produtos não é quem tem poupa e compra a vista, mas quem compra fiado e se dispõe a pagar os juros mais altos da via láctea! Nao falo da Selic, mas dos juros cobrados do consumidor final! Repetimos: o brasileiro consome baixa qualidade pagando preços exorbitantes!