Não sei como o presidente Luiz Inácio terá apreciado sua surtida no reino encantado de Fidel e Raúl Castro, nem seu mutismo diante do doloroso episódio dos presos políticos, cujas dimensões podem ser entrevistas na morte de um deles, ao cabo de 85 dias de greve de fome; suas declarações a desoras acerca da Justiça cubana, a contrastar com a corajosa reação das Damas de Branco, desfilando nas ruas de Havana e enfrentando a polícia, causaram mal-estar aqui e além-mar; o certo é que, não sei se por sentir-se engolfado na popularidade e a coberto de máquina publicitária sem precedentes, por esta ou aquela motivação, jogou-se o presidente aos devaneios de alta diplomacia, oferecendo seus talentos para desfazer a maçaroca do Oriente Médio.

Ao menos prendado dos homens públicos não passariam despercebidos os escabrosos caminhos do caso, mas o presidente brasileiro arrostou o desafio por si e para si, sob as inspirações de sua vara mágica. A mágica, às vezes, beneficia audazes e levianos, mas é incerta e caprichosa. O certo é que, homem de bons augúrios, o presidente selou um pacto com a fortuna e o resultado foi o que se viu.

Consagrados oficiais da área diplomática opuseram embargos à missão temerária, já pelo momento em que promovida, já “pela péssima companhia” (e estou repetindo palavras de eminente diplomata) de que se servira o oferecido mediador, amigo, patrono ou avalista do Irã. Note-se que, fazia pouco, o governo brasileiro convidara o supremo dirigente daquele país a visitar o Brasil e o recebeu com tapete vermelho, o que propalara a extinção do Estado de Israel. Sem falar em sua política nuclear, que preocupa as nações, o observador menos atento não deixaria de atentar para a incongruência senão a incompatibilidade entre o presidente, que se oferecia para mediador do conflito, e o paraninfo internacional do país que está insulado por sua política nuclear, já não falo em direitos humanos.

Mas há outro dado altamente significativo. O presidente brasileiro se recusou a praticar ato de cortesia habitual em visitas de chefes de Estado, de resto integrante do cerimonial diplomático do país visitado, consistente em depositar uma coroa de flores no túmulo de figura cultuada em Israel, Theodor Herzl, o pregoeiro do retorno ao seu sítio histórico. Por que e para quê? A estólida medida não foi do Itamaraty, o embaixador brasileiro em Israel foi incisivo a respeito. Sirvo-me do que foi divulgado, “a diplomática e tradicional colocação de flores no túmulo do fundador do sionismo, Theodor Herzl, foi ceifada da agenda da visita oficial do presidente Lula a Israel, nesta semana, pelo assessor da Presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia. Ele desconsiderou observações remetidas pela embaixada do Brasil em Tel-Aviv…”. Pior foram as explicações do Itamaraty, “o programa estava pesado demais para o presidente, que recentemente teve uma crise de hipertensão”! A mesma pífia escusa desapareceria além da fronteira vizinha junto ao túmulo de Arafat. As explicações chegam à tolice. O resultado foi o que se viu.

O que a mim impressiona de modo especial é o fato de o Itamaraty ser mantido por dois ministros. Não falo no resto. Há quem diga que o expediente seria achega importante para recomendar a um falado posto na ONU para o honrado presidente na sua próxima vilegiatura, “coisa que o depoente não acredita”, mas que não contribui para melhorar o burlesco episódio.

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Não porque seja nome de rua em Israel, mas estou a lembrar-me com saudade de Osvaldo Aranha; não foi presidente nem frequentou o Rio Branco, mas era diplomata, estivesse às margens do Ibirapuitã ou na presidência da Assembleia Geral das Nações Unidas.

Fonte: Jornal “Zero hora” – 29/03/10

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