Não é só pelas agências de rating

Inflação persistentemente elevada preocupa, pois é termômetro da baixa qualidade da política econômica. O mesmo vale para a composição da inflação. Desequilíbrios nos chamados preços relativos também podem refletir problemas no desenho da política econômica. Ambos fatores prejudicam a economia e os grupos sociais de menor renda. Compreender as suas causas é essencial para a escolha adequada dos instrumentos de política econômica.

Estímulos excessivos causam pressões inflacionárias que podem produzir consequências não intencionais, tanto no funcionamento da economia quanto no comportamento dos indicadores sociais. A inflação elevada desorganiza a produção e ameaça conquistas sociais ao penalizar a base da pirâmide social. Um risco claro para o Brasil.

Para além do patamar da inflação, é crucial considerar a dinâmica de preços relativos, sobretudo a relação entre preços de bens comercializáveis (grosso modo, produtos manufaturados e commodities) e não-comercializáveis (basicamente serviços). Este preço relativo é uma variável central para definir competitividade externa do produto nacional.

É provável que a enorme resistência da inflação de serviços decorra dos excessos fiscais dos últimos vários anos

Quando este preço relativo está reduzido, com os preços de bens finais (comercializável) em patamares baixos vis-à-vis os custos (salários e serviços), a indústria sofre com margens deprimidas, prejudicando sua produção e, assim, as contas externas, principalmente pelo aumento da participação do produto importado na cesta de consumo. Inversamente, o aumento desse preço relativo contribui para o ajuste das contas externas; ajuste mais do que desejável no caso brasileiro.

O desenho da política econômica influencia este preço relativo. A expansão fiscal implica uma demanda relativamente maior de bens não-comercializáveis e, portanto, elevação de preços do setor. Num quadro de excessos fiscais sistemáticos, que se traduz em inflação de bens não-comercializáveis mais resistente, transferir apenas à política monetária o papel de compensar todo o impacto inflacionário pode até agravar o problema de desequilíbrio de preço relativo de comercializáveis/não-comercializáveis, pelo potencial de apreciação cambial (juros altos fortalecendo a moeda). Assim, um desbalanceamento entre as políticas monetária e fiscal pode ser bastante prejudicial ao funcionamento da economia ao longo do tempo, independentemente do patamar da inflação.

É bastante provável que a enorme resistência da inflação de serviços (acima de 8% ao ano) decorra em grande medida dos excessos fiscais dos últimos vários anos.

O aumento da taxa de câmbio em curso, que eleva os preços de bens comercializáveis, pode ser uma boa notícia, tendo em vista o desconfortável déficit externo atual. Mas não será nenhuma salvação, pelo contrário, se se traduzir em mais inflação generalizada e não em ajuste do preço relativo de comercializável/não-comercializável. É crucial evitar os chamados efeitos secundários do ajuste do câmbio sobre os demais preços da economia, tendo em vista os mecanismos formais e informais de indexação, sobretudo num contexto de inflação corrente elevada.

Um exemplo importante de contaminação do câmbio seria a inflação corrente mais elevada gerar correções salariais robustas, quando o ideal seria ter ajustes salariais compatíveis com a expectativa futura de inflação mais baixa. No primeiro caso, o preço relativo entre comercializáveis e não-comercializáveis pode não subir na intensidade necessária para ajustar as contas externas. No limite, a crise aguda poderia levar a uma espiral contínua de aumento da taxa de inflação e da taxa de câmbio, com fortes prejuízos para a atividade econômica e os indicadores sociais.

Daí a importância da disciplina monetária e fiscal para evitar esses efeitos secundários do câmbio e permitir o necessário ajuste de preços relativos. Em situação normal, de equilíbrio das contas públicas, a política monetária poderia garantir a âncora de preços. No quadro atual da economia brasileira, ainda com grande desequilíbrio fiscal, o ajuste da política fiscal é essencial.

Isso posto, é possível que o enxugamento de gastos públicos em curso traga importante alívio para inflação de não-comercializáveis, contribuindo não apenas para a queda da taxa de inflação em si, mas também para o ajuste das contas externas, em decorrência da maior competitividade externa da produção nacional.

Fica a dúvida se o país tem compreensão do desafio e maturidade política para o duro ajuste no curto prazo para evitar uma crise aguda. Os últimos anos não ajudam. Por outro lado, a sociedade valoriza a inflação bem comportada.

Não se trata apenas de convencer agências de rating a manter a nota de crédito do país, mas da discussão transparente sobre os benefícios de colocar a macroeconomia nos trilhos.

Fonte: Broadcast, 27/3/2015

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1 comment

  1. Samir Jorge

    Gosto dos artigos da Zeina Latif.

    Ela poderia ser mais didática sobre esta dinâmica dos preços relativos e a relação entre preços comercializáveis e serviços.

    Sou graduado em Direito e não em Economia.

    Atenciosamente,

    (a) – Samir Jorge.