O problema do câmbio continua a produzir manifestações impensadas, ou excessivamente pensadas, não sei o que é pior. Vale, nesses casos onde o silêncio se disfarça de inteligência, o conselho de um velho amigo de Brasília: atenção vigilante e discreta omissão.

Dentre os destaques da semana, na categoria “desabafos minuciosamente calculados”, acha-se o governador José Serra, que chama o governo de “trouxa” por praticar um “desvario cambial” mal explicado pelo “tro-lo-ló dos economistas”. O eleitor paulistano passeando pela vizinhança pensaria que o governador é advogado ou artista gráfico. O mais antenado identificaria no governador um desses “desenvolvimentistas”, que ajudaram o Plano Real quase tanto quanto os economistas do PT, reconhecidos pela prosa parnasiana. O fato é que o governador não se manifestou quando o Presidente do BNDES e professor da Unicamp, Luciano Coutinho, declarou recentemente que o Plano Real foi feito pelo PT em 2005.

A declaração foi feita no Clube de Engenharia, um ambiente que exerce as mais curiosas influências sobre os economistas que ali vão falar. Luciano Coutinho oferece uma espécie de inversão da lenda de Pigmaleão, o escultor e rei de Chipre, que não queria nada com as moças da ilha até que fez um arranjo com Afrodite segundo o qual faria uma “obra prima”, pela qual se apaixonaria e que, através de um beijo seu, se tornaria uma mulher de carne e osso, e sua. Coutinho, como os outros petistas, e ao contrário do herói da lenda, odiava a moça, a nova moeda, e agora a quer para si. Um caso de apropriação intelectual indébita, nada muito sério, por isso talvez, apenas alguns parlamentares do PSDB e do DEM foram à tribuna desancar o nosso Pigmalião redivivo.

Existem economistas para todos os gostos, e para demonstrar a extensão das sutilezas que nos separam, queria contestar meu colega professor da PUC do Rio de Janeiro, Márcio Garcia, no momentoso tópico do controle de capitais. Digo momentoso por que é uma maldade amplamente sussurrada pelos corredores da Brasília, melhor dizendo, pelos aeroportos, e não apenas os da capital, pois é nesses que as pessoas têm passado muito de seu tempo jogando conversa fora. Como a qualidade das conversas sobre o problema cambial diminui com o aumento do número de horas desperdiçadas esperando aviões, as pessoas estão ficando preocupadas com a reintrodução de IOFs sobre as operações de câmbio associadas a entradas de capitais de curto prazo.

Eu e Marcio somos contrários ao IOF. Ele diz, num artigo para o Valor (06.07.07), que o assunto é de “economia positiva”, frase de muito efeito, nem sei bem como interpretar, talvez o sentido seja o de que os IOFs são ineficazes sempre e em quaisquer circunstâncias. Não é o que a literatura acadêmica diz; parece-me que é o que gostaria de dizer. Não é o que as pesquisas dele e de seus alunos mostram sobre a experiência brasileira da 1993-99. Eu e Marcio tivemos uma diatribe acadêmica em um seminário internacional, o leitor interessado poderá ler a pesquisa dele e a minha no site do Departamento de Economia da PUC (www.econ.puc-rio.br, na aba “publicações”, para 2006, textos para discussão 516, o dele, e 517, o meu). Ele relaciona mais de uma dúzia de maneiras de enganar o BC travestindo capitais de motel em outra coisa, eu acho tolos todos os disfarces apresentados. Podemos concordar que o mercado é esperto em contornar obstáculos, o que, todavia, sempre tem custo, e os números (o IOF coletado, o prazo médio das operações) mostram que a coisa funcionou.
O fato de que funcionou no passado, conforme sustento, e ao contrário do que diz o meu colega, serve para mostrar, para começar, a preocupante desunião no que os parnasianos chamariam de “o pensamento único”. Mais importante, todavia, é que tendo ou não funcionado no passado, o problema hoje é diferente. Marcio e eu discordamos sobre a morte da bezerra, mas concordamos em não recomendar o IOF para a situação que temos hoje, pois o problema é com o “mega-superávit” e com a repressão às importações, não com os juros, que podem não ser inteiramente irrelevantes para o problema, mas não passam nem perto de serem determinantes.

(Publicado em Época –  16 de julho de 2007)

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