No Cosme Velho, bairro onde moro, há uma fonte de renda única para os jovens das comunidades pobres da região: ser guia turístico. A proximidade da estação de trens que leva ao Corcovado e os vários ônibus de turismo que param lá todos os dias atraem uma grande quantidade desses jovens em busca de seu sustento. Na verdade, eles até se organizaram em uma pequena cooperativa e compraram camisetas iguais que servem como uma espécie de uniforme. Infelizmente, não possuem dinheiro suficiente para investir no próprio negócio, o que faz com que trabalhem de pé em cima da calçada, parando os carros que passam. Como esses jovens não podem colocar seu próprio dinheiro, já que possuem muito pouco, como fazer para que o negócio seja mais lucrativo? Se vivêssemos em um país como a Inglaterra ou os Estados Unidos a resposta seria simples: peça um empréstimo ao banco. Ora, com juros de aproximadamente 3% ao ano não deve ser difícil! Para azar dos rapazes do Cosme Velho eles nasceram no Brasil. Uma ida ao banco mais próximo, na melhor das hipóteses, lhes daria um empréstimo com taxas de aproximadamente 20% anuais. Isso significa que a cada ano, o valor a ser pago cresceria em 1/5. Mesmo que os guias turísticos fossem ótimos administradores, pessoas capazes de executar um plano de negócios perfeito ou gênios natos do atendimento ao consumidor, ainda lhes resta um porém. Quem não tem garantias para dar não tem crédito. Morando em favelas, a situação de posse deles é irregular, por conseguinte não podem pedir empréstimos para investir, montam um negócio precário e pouco lucrativo e, como consequência final, ficam estagnados sem crescer nem gerar renda para eles mesmo nem para seu meio. O governo brasileiro, que come perto de 40% da renda daqueles que tiveram a sorte ou capacidade de conseguir gerar renda, monta escolas onde os guias mal aprendem português, que dirá uma segunda língua. Tampouco são preparados para o mercado de trabalho, não recebendo capacitação para coisas simples como escrever um currículo ou lidar com uma entrevista de emprego. Mal “equipados” para suas vidas, só lhes resta empreender. Mas empreender é difícil quando o governo, além de cobrar juros de cerca de 20% ao ano, toma mais uma boa bocada em impostos. Já ouvi muita gente dizendo que a situação das pessoas como os meus vizinhos acontece por vivermos em um sistema “capitalista” e “excludente”. Honestamente, quem exclui esses rapazes não é o “sistema”, é quem lhes nega a entrada no mercado formal. Se quisermos achar culpados, podemos começar por Brasília.

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