Paulo já tocou na questão do mérito e da competitividade na educação ontem, mas o governo traz o assunto novamente à pauta ao insistir em uma reserva de 50% das vagas da universidades federais, levantando a questão do idealismo burocrático versus o realismo pragmático. A visão pragmática olha o estado atual das universidades. Para não dizerem que estou imaginando situações, trago minha própria experiência. Estudei em escola particular na Zona Sul do Rio de Janeiro e faço Letras (Português-Grego) na UFRJ. Tenho colegas que só fizeram uma redação por ano, não-corrigida, em suas escolas públicas de origem. Em cursos pouco concorridos como Letras, o desnível pode se dar entre poucos alunos, como eu, e uma grande massa. Mas em cursos muito concorridos, como Direito ou Medicina, e até mesmo Jornalismo, uma reserva de vagas de 50% pode significar um desnível muito grande entre as duas metadas do corpo discente, levando a uma inevitável segregação e à tensão social. Até porque, sendo todos os alunos igualmente pagadores de impostos, todos têm o mesmo direito à universidade pública, mas um dos grupos tem o acesso facilitado e o outro dificultado. Também não posso deixar de lembrar o que freqüentemente ouço nos corredores da UFRJ: que, ano após ano, o nível dos alunos só faz cair. Que a universidade hoje cumpre o papel do ensino médio. Que o mestrado cumpre o papel da universidade. Será que é com aprovação automática no ensino fundamental e médio e com reserva de vagas que o governo vai melhorar essa situação? Ou será que o único efeito será a perda de qualidade de um dos poucos redutos reconhecidos de excelência no setor público? Só quem não percebe o potencial destrutivo dessa reserva de vagas são as pessoas que acham que os males do mundo são resolvidos com leis e burocracia, e nunca souberam a diferença entre dar um prato de comida a quem tem fome e votar num candidato de esquerda. Enfim, os idealistas, que na frase de T. S. Eliot “querem criar sistemas perfeitos o suficiente para dispensar as pessoas de ser boas”. Se as pessoas fossem estatísticas, talvez suas soluções até funcionassem.

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