Sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
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Petróleo, China e “novo normal”, os fantasmas de Davos

Temíveis espectros rondaram a edição deste ano do Fórum Econômico Mundial de Davos.

Mergulho vertiginoso das cotações internacionais do barril de petróleo. O biombo da desaceleração chinesa e o que ele pode esconder de assombroso. O baixo crescimento das economias maduras perfazendo um “novo “normal”.

Tais fantasmas projetam-se ainda mais aterradores para o Brasil. Tempos atrás, quando a descoberta da camada pré-sal foi anunciada, Hugo Chávez sugeria que no futuro teria de se referir ao “Sheik Lula”. A riqueza petrolífera brasileira representaria uma “segunda independência”.

Jorrando em abundância, a commodity pagaria por nossa educação, ciência e tecnologia. Em 2007, durante a 17a. Cúpula Iberoamericana, Lula saudava o petróleo como uma “dádiva de Deus”, o “coroamento de um país que esteve a ponto de desabrochar e muitas vezes murchava”.

O então presidente brasileiro antevia o país como membro atuante da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), onde iríamos “brigar para abaixar o preço”.

Parece que o destino acatou as palavras de Lula. No entanto, com a derrocada do preço internacional do petróleo e barril a menos de US$ 30, a pergunta direcionada ao Brasil é se o pré-sal ainda pode ser rentável.

A resposta mais prudente é: conceitualmente, sim. Muitos dos custos da indústria fornecedora de bens e serviços acompanham a queda do petróleo, portanto estão mais baixos.

Contudo, o preço baixo da commodity em termos internacionais desencoraja novos investimentos da Petrobras na camada pré-sal, o que resulta em impactos negativos sobre a produtividade.

Como regra geral, quanto maior a escala dos investimentos, maior é a tendência à produtividade. De antemão, a conjuntura abundante em petróleo, a má administração da empresa nos últimos 13 anos e a corrupção que vicejou na empresa tornam a empreitada menos lucrativa.

No final de 2015, de acordo com Eduardo Braga, ministro das Minas e Energia, o ponto de equilíbrio do pré-sal encontrava-se abaixo de US$ 35 dólares.

O fato é que a viabilidade do petróleo brasileiro não deve ser medida apenas na cotação de um dado momento, mas ao longo de determinado período de tempo. Isso vai depender das apostas estratégicas que se façam.

Num cenário, por exemplo, em que a volta do Irã ao quadro de fornecedores é menos robusta do que se imaginava (a infraestrutura em torno da indústria petrolífera naquele país está bastante defasada), os países da OPEP chegam a algum entendimento quanto à limitação da produção e a indústria de combustíveis não-convencionais nos EUA (como o xisto) dá uma desacelerada, o pré-sal brasileiro volta a ser competitivo.

Este não é um cenário difícil de imaginar. Caso ele aconteça, é de todo possível que o barril volte a preço superior a US$ 50.

O problema é aguardar este horizonte mais desanuviado com penúria de caixa. Todas as empresas petrolíferas estão vivendo tempos difíceis. Não há muitas alternativas do ponto de vista da receita.

Onde dá para mexer é no campo das despesas e expansão. Isso implica diminuição do quadro de funcionários, venda de ativos, freio nos investimentos etc.

A Petrobras ter, obrigatoriamente, participação mínima de 30% no pré-sal é um dos grandes problemas para viabilizar a extração nessas camadas profundas. O governo deve rever as regras de participação de outras empresas nas licitações do setor.

Na presente conjuntura, a Petrobras não apresenta as mínimas condições de exercer tal participação nos empreendimentos do pré-sal. Ela é uma das empresas mais endividadas do mundo — e ir a mercado para novas capitalizações não é cenário plausível.

O governo brasileiro também tem de mexer forte nas regras de conteúdo local — que até agora não apenas oneram a Petrobras, como também trazem grandes atrasos e ineficiências para todo o setor energético brasileiro.

Assim, quanto ao “fantasma” petróleo, nossos erros internos assustam muito mais do que o “momento” internacional da commodity.

Também em relação à China há muito de excesso de pânico. Geralmente os mercados oscilam em reação à qualidade dos fundamentos — ou seja, àquilo que se sabe — ou então ao desconhecido. No atual “frisson” quanto à China, o principal sentimento parece ser “deve haver algo de errado que não sabemos”.

Muitos enfatizam a taxa de crescimento chinesa em 2015 (6,9%) como a mais baixa desde 1990. Esquecem, contudo, que com tal percentual a contribuição incremental da China à formação da demanda global é de mais de US$ 700 bilhões, já que que o PIB chinês se avizinha dos US$ 11 trilhões.

Somam-se a isso outros fatores como a incógnita dos resultados das contábeis das empresas nos EUA, o Japão em ritmo lento e alguns grandes emergentes como Brasil e Rússia em forte recessão — e o quadro desanimador do “novo normal” se complementa.

Há o risco de experimentarmos algo semelhante a 2008 e o desencadear em escala global de uma nova Grande Recessão? Provavelmente, não.

É menor o risco de novas bolhas no setor imobiliário nos EUA. Aumentou a regulação sobre produtos financeiros “übercriativos”. Muitas das economias europeias já promoveram ajustes de austeridade.

Podemos estar numa estrada esburacada, mas o carro não vai capotar. Há hoje, contudo, mais riscos geopolíticos do que em 2008 (Coreia do Norte, Oriente Médio num quadro ainda mais inflamável), mas os vírus econômicos não são tão devastadores como nas crises gêmeas de 2008 e 2011.

Nesse quadro, não deve haver risco de recessão nos EUA. A economia norte-americana prossegue numa trajetória de recuperação e de aumento de sua importância relativa no produto global, seja pela robustez de seu PIB, pela liderança no desenho de novas geometrias de comércio e investimento, ou pela imensa capacidade de inovação de suas empresas — e portanto de inauguração de novos ciclos econômicos.

O preço do barril de petróleo haverá encontrar seu piso, os números da China precisam vir fortes — e confiáveis — e os resultados corporativos nos EUA têm de agradar.

Estes são os principais moduladores para saber se os fantasmas que aparecerem em Davos assustaram de forma apenas momentânea ou podem ser assombrações mais duradouras.

Fonte: Folha de S.Paulo, 27/01/2016.

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