Sábado, 3 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

A Petrobrás tem solução

A Petrobrás vive a pior situação de sua história. Fosse uma empresa privada, estaria em recuperação judicial. Mas ela não é uma empresa qualquer. A Petrobrás está no risco soberano do Brasil e a solução da crise econômica passa necessariamente pela refundação da empresa. Não podemos nos iludir, sua recuperação será longa e bastante penosa. Os estragos foram muitos e profundos.

A Petrobrás tem R$ 543 bilhões de dívida, com R$ 300 bilhões a R$ 350 bilhões vencendo de 2016 a 2020. Para manter a produção atual no patamar de 2,1 milhões de barris/dia, a Petrobrás precisa investir outros R$ 400 bilhões no período 2016/2020.A geração de caixa esperada para este período é de R$ 200 bilhões, assumindo que a empresa manterá o atual preço implícito de venda no mercado doméstico de US$ 60-62/barril. A empresa tem outros R$ 100 bilhões em caixa. São R$ 700-750 bilhões de necessidade de caixa mais rolagem para R$ 300 bilhões de geração de caixa. A conta não está apertada, ela simplesmente não fecha por uma larga diferença.

Embora o endividamento da empresa tenha crescido de R$100 bilhões em 2009 para R$ 543 bilhões em 2016, a maior parte dos recursos não foi aplicada em investimentos com contrapartida em receita. Sem considerar a inflação, o custo de oportunidade na taxa real de juros ou as variações cambiais. De 2010 a 2016, R$ 159 bilhões foram desembolsados em subsídios de gasolina e diesel. R$ 78 bilhões foram desembolsados em custos extraordinários nos investimentos nas refinarias RNEST, Comperj e Premium Maranhão e Ceará. R$ 20 bilhões foram desembolsados em custos extraordinários nos investimentos em outros ativos de downstream. Além disso, a empresa contabilizou outros R$ 137 bilhões em variações cambiais da dívida sem hedge pela geração de caixa da empresa, já que apenas 18%-22% da receita é diretamente vinculada ao câmbio.

E qual é a solução? A solução passa por uma divisão entre todos os stakeholders das barbeiragens cometidas pelo governo do PT nestes 13 anos.

De imediato, duas medidas precisam ser implantadas. A primeira é o consumidor ficar ciente de que vai ter de pagar um prêmio no preço da gasolina e do diesel nos próximos 4 a 5 anos, para que a Petrobrás possa gerar caixa e enfrentar sua dívida. O correto é a gestão de preços, criando uma fórmula paramétrica que dê transparência aos preços de todos os derivados; e, ao mesmo tempo,a arbitragem de outros importadores poderia ser eliminada por meio de uma Cide de importação a ser revertida a favor da Petrobrás. Também é fundamental precificar a logística. O preço na porta da refinaria do Rio não pode ser o mesmo que em Brasília.

A outra medida de curto prazo seria promover uma capitalização da empresa entre R$ 100 bilhões e R$ 200 bilhões, devolvendo aos cofres o dinheiro retirado pela má gestão e pela corrupção. Existem várias formas para capitalizar a empresa, o correto é optar por aquela que promovesse os menores impactos na macroeconomia.

O Plano de Desinvestimentos tem de ser executado com mais cuidado e menos pressa. Primeiro, deveria ser elaborado um plano estratégico em que se defina a Petrobrás que desejamos ter nos próximos anos. Depois, é preciso promover um upside dos ativos de downstream. Sem regulamentações definidas em margem de refino, transporte de gás, infraestrutura de transporte, governança, etc., é difícil de acreditar nos valores anunciados de US$ 52 bilhões com a venda de ativos. Assim, o governo e a ANP devem rever a atual legislação e a regulação para verificar se precisam ocorrer alterações diante do cenário de venda de ativos, já que alguns são monopólios.

São negociáveis imediatamente ativos como fertilizantes, geração de energia, petroquímica, etanol, biodiesel, ativos internacionais como a Petrobrás Energia na Argentina e o lease back de plataformas. Vamos aproveitar a venda de ativos para a construção de uma nova Petrobrás, eficiente e lucrativa, e de um marco regulatório que promova a concorrência e atraia investidores de qualidade.

Fonte: O Estado de S.Paulo, 09/04/2016.

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