Vejo muita gente expressando surpresa diante da aliança de Lula com Sarney e Collor. Não nego que existem razões para o alvoroço. Afinal, Lula ganhou vulto político e chegou à presidência exatamente por ter construído sua imagem como alguém em frontal antagonismo aos padrões éticos seguidos por seus antecessores no posto. Tanto foi assim, que no imaginário coletivo, Lula era apreciado como pinga de outro barrilete.

Pois não é que aquele homem de hábitos simples, cujo único luxo era um bom aparelho de som, tornou-se companheiro dos mesmos plutocratas cuja reputação sempre procurou destruir? Há jornalistas, por aí, batendo com a cabeça na parede até sangrar. Há analistas buscando explicação para tão instigante reviravolta. O mundo virou do avesso? Quando é que a água começará a escorrer do ralo para a torneira?
Penso que devemos analisar o fenômeno sob outro ponto de vista. Pouco me surpreende Lula andar de braços dados com Sarney e Collor. O que me espanta é o contrário: o que deu em Collor e Sarney para se unirem a Lula? Isso lá é coisa que ambos façam? Perderam completamente o amor próprio? Depois de tudo que Lula e os seus fizeram e disseram contra eles?

A opinião de Lula sobre Sarney presidente pode ser pesquisada na internet e eu deixo de reproduzi-la porque são coisas não se dizem, não se escrevem nem se transcrevem (mas para quem quiser procurar, há, inclusive, vídeos nos quais se pode assistir Lula falando). Já o que Collor candidato dizia de Sarney presidente gerou menos material para pesquisa, mas nem Sarney lhe deixava pouca munição, nem Collor era um modelo de temperança verbal. Aliás, o alagoano falava tão mal de Sarney que este, para fustigá-lo, anunciou que votaria em Lula no pleito de 1989. E agora estão todos com o homem? O que é isso, meu Deus?

Se você disser que Lula sempre foi assim, metade dos seus amigos petistas ficará aborrecida. Se você disser que ficou assim depois de eleito, a outra metade se aborrecerá. É um beco sem saída. Provavelmente só estarão certos os petistas, poucos pelo que sei, que preferirão se aborrecer com Lula.

Pense comigo. Sarney e Collor não fizeram mal algum a Lula. Portanto, este nada tem contra aqueles. Nada! Exceto os conceitos anteriormente emitidos e que precisou, digamos assim, “engolir e digerir”. Já o inverso não é verdadeiro. Lula e seu partido foram verdugos de ambos.  E agora os dois lutam – juntos! – na defesa dele? Como puderam, digamos assim, “engolir e digerir”?

Estou convencido de que para nosso presidente a política começa e termina no jogo do poder. Tudo mais se queima nas velas desse altar. Qualquer reputação pode ser incinerada para se chegar lá e qualquer delito ou ofensa encontra perdão se isso convier à permanência no poder. É uma espécie de stalinismo tropical. A lista dos que se enquadram nos dois grupos – dos ofendidos e dos perdoados – é volumosa como um relatório de CPI e contém personagens aos quais o leitor, tenho certeza, não franquearia sequer a porta dos fundos de sua casa.

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