Poliana na economia

Há gente que acredita que os governos têm de ser mais otimistas do que a população quando discorrem sobre a economia. Desta forma, conseguiriam incentivar o investimento, o consumo e manter a economia aquecida, mesmo em tempos difíceis. Eu, ao contrário, acho que os governos (felizmente) não conseguem enganar de forma sistemática a sociedade e não têm capacidade de incentivar a economia apenas no gogó. Mas esse tipo de tática continua sendo usado. Vejamos o caso recente do Brasil: até a semana passada, mantinha-se uma “meta” irrealista de crescimento para o PIB este ano. Essa “meta” não resistiu nem aos dados divulgados do trimestre anterior: “Com este resultado, ficou difícil atingir aquela meta de 4% que eu vinha falando”, disse o ministro da Fazenda em entrevista coletiva. Mas a tática continua, só com outros números: “os mais pessimistas preveem um crescimento de 1,5% – 2%”, “ficaremos distantes de um déficit técnico”.

Fiquei na dúvida. Que diabos é um “déficit técnico”? Meu leitor, o termo “déficit técnico” não existe. Existe é o termo recessão, que ocorre tecnicamente quando há dois trimestres seguidos de crescimento negativo. Possivelmente chegaremos lá em breve. E que “pessimistas” são esses que preveem um crescimento para o Brasil de 1,5 – 2% em 2009?

Fiquei abaixo da linha-d”água, já que me encontro mais pessimista que os “pessimistas” acima. Ainda bem que eles não existem. Na verdade, apenas os realmente otimistas acreditam que o crescimento alcance 2% em 2009. Houve uma queda sincronizada do PIB no final do ano passado: o PIB dos EUA caiu 6,2%, o do Japão projeta-se em 12%, e, o da Europa, 5,7 % (todos os dados medidos de forma anualizada). E não há sinais de que tenha ocorrido o tal desacoplamento das grandes economias emergentes em relação ao resto do mundo.

Certamente a economia brasileira não foi exceção neste mundo em queda. O PIB do último trimestre do ano passado recuou 3,6% em relação ao trimestre anterior. Medida de forma anualizada (se permanecesse por um ano), essa queda atinge impressionantes 13,6%. O crescimento total do ano passado, que chegava a 6,8% no terceiro trimestre, fechou o ano de 2008 com 5,1%.

Essa queda do PIB no final do ano passado gera um legado ingrato para este ano. Caso o nível de produção se mantenha no mesmo patamar do final do ano passado, o crescimento este ano sobre a média do ano passado (famoso carry over, em economês) será negativo em 1,5%.

É bom lembrar que, há poucos meses, estimava-se um carry over positivo de 2,5%. Com base nessa diferença, quem estimava um crescimento médio de 3%, para 2009, deveria ajustar sua projeção para uma queda de 1% em 2009, a menos que esteja hoje enxergando novas forças propulsoras de crescimento.

E a recessão? Estimamos uma nova queda do PIB acima de 2%, no primeiro trimestre deste ano, com base no legado da queda brusca ocorrida em dezembro e na fraca recuperação observada desde então. Com duas quedas seguidas, tecnicamente estaremos em recessão.

Com a “herança maldita” (carry negativo em 1,5%), o crescimento este ano vai depender da capacidade de recuperação da economia brasileira, principalmente no segundo semestre. Desenvolvemos um exercício que utiliza as recuperações anteriores da economia brasileira – após as crises de 1998/9 e 2002 – para calcular a possível taxa de crescimento em 2009 (ou seja, embute-se as recuperações anteriores sobre o atual nível de produção). O resultado não é alentador. Mesmo embutindo recuperações rápidas da atividade no segundo semestre, baseadas em períodos saudáveis da economia mundial, o crescimento do PIB este ano ficaria entre -1,2 e -1,8%.

Em suma, a economia brasileira não conseguiu desacoplar-se do resto do mundo. A queda do PIB do final do ano passado foi severa e tem implicações sobre o crescimento deste ano. A “herança estatística” é uma queda adicional do PIB neste primeiro trimestre do ano e um carry negativo de 1,5% para o ano. Mesmo com uma recuperação saudável no segundo semestre deste ano, prevemos que a economia deva ainda retrair-se em 2009 um pouco além de 1%.

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