No começo de junho, cerca de cem pessoas reuniram-se para protestar contra o uso do “caveirão” em operações policiais em favelas. Para quem não sabe, o “caveirão” é uma van adaptada para ser um carro de combate blindado, resistente a certos explosivos e armas de grossos calibres. O veículo tem causado comoção entre a bandidagem carioca, que até elaborou manuais sobre como combatê-lo. Será, então, que a manifestação realizada em frente ao Palácio Guanabara foi realizada por bandidos que estariam se sentindo injustiçados pela polícia? Apesar de serem os principais interessados no fim do uso do “caveirão”, descobri que, pelo menos aparentemente, a manifestação não foi organizada por meliantes. Há, na verdade, um movimento multinacional contra o tal do carro. Por trás do ato, estão a ONG Justiça Global, a Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência, a Anistia Internacional e o Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis. A manifestação faz parte de uma campanha, lançada em março, simultaneamente, no Rio de Janeiro e em Londres. Para entender melhor o que se passa, tratei de ler o relatório da Anistia Internacional entitulado “Vim buscar a sua alma: o caveirão e o policiamento no Rio de Janeiro”. O trabalho visa a explicar por que o veículo blindado é um mal desnecessário. Dentro dele, protegido pelo anonimato, os policiais tenderiam a abusar do poder, o que se refletiria em mais mortes e ferimentos por balas perdidas. A Anistia diz, ainda, que se preocupa com o calibre do fuzil usado pelas autoridades, o FAL 7.62, o qual teria alto poder de destruição. Segundo a organização, o uso do “caveirão” é o ápice de uma política pública baseada no confronto e que, como efeito colateral, desencadeou uma corrida armamentista por parte do tráfico. O reflexo estendeu-se, também, ao imaginário infantil, já que as crianças das favelas temem mais o veículo do que o bicho-papão. Não duvido que haja abuso por parte da polícia em incursões pelas favelas cariocas. Será, no entanto, que sem o “caveirão” haveria melhora na relação entre os moradores de comunidades carentes e as autoridades? Ou, simplesmente, os policiais se tornariam alvos mais fáceis para os bandidos? Até onde eu sei, o calibre do fuzil usado pela polícia é o mesmo do AK-47, armamento que é o preferido por dez entre dez bandidos no Rio de Janeiro. Além do mais, não há lógica em armar a polícia com equipamentos menos potentes, enquanto o outro lado tem acesso à tecnologia de ponta. Daqui a pouco, o colete a prova de balas será considerado competição desleal. As organizações que lutam pelos direitos humanos exercem importante papel ao chamar a atenção da sociedade para violências cometidas pelo Estado contra os indivíduos. Com a desmoralização da polícia, no entanto, quem protegerá os indivíduos das violências cometidas pelo crime organizado? Para quem quiser participar da campanha: http://www.global.org.br/portuguese/campanhacontracaveirao.html

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