Sábado, 10 de dezembro de 2016
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Política externa e escândalos internos

Costuma-se dizer que a política externa faz os presidentes parecem mais “presidenciais”.

Há uma óbvia e imediata correlação entre quadro político interno e força da política exterior. Por vezes, o doméstico e o internacional andam juntos. Há inúmeros casos, no entanto, em que ações externas são empreendidas com o objetivo precípuo de desviar atenção de problemas internos.

A Guerra das Malvinas serviu para que o êxito britânico no Atlântico Sul fortalecesse o governo Thatcher. Mais adiante em seu mandato como primeira-ministra, a Dama de Ferro valeu-se dos extraordinários resultados de sua política liberalizante interna para revigorar o prestígio britânico no mundo.

O Brasil ainda não desarmou seu aparato interno de política industrial protecionista

O resultado da “Reaganomics” nos anos 1980 não se cindiu a eventos internos, como o fim da estagflação e a retomada do crescimento. A renovada liderança econômica e tecnológico-militar dos EUA ajudou a precipitar o colapso da União Soviética.

Nos anos Clinton, os EUA experimentaram a maior expansão econômica interna desde os anos 1950. Sua política externa alcançou importantes marcos, como o acordo de Dayton, que ajudou a distender o conflito na ex-Iugoslávia. Contudo, muitos atribuem os momentos de maior proatividade internacional daquele período a crises de imagem do titular da Casa Branca.

Em 1998-99, Washington encontrava-se imantada pelo “caso Lewinsky”, pelas investigações do promotor independente Kenneth Starr e pela abertura de um processo de impeachment contra o presidente. Clinton aproveitou o ambiente de animosidade interna e aprofundou sua diplomacia para o Kosovo e o Iraque.

Décadas antes, mesmo com o crescente escrutínio de imprensa e promotores no caso Watergate, Nixon acelerava sua política de aproximação e abertura com a China maoista.

No Brasil dos últimos 13 anos, temos exemplos de ambas as modalidades. Amparados pela convicta fé de que haviam descoberto uma nova forma de desenvolvimento econômico com inclusão social, Lula e seus assessores de política externa pregaram ao mundo, in loco, as virtudes exportáveis de um novo milagre brasileiro.

Nesse sentido, a política externa de Lula foi extremamente coerente. Acreditávamos que nosso crescimento não estava necessariamente vinculado ao boom global de commodities, à emergência da China ou aos benefícios suplementares da estabilidade econômica cujas bases se construíram anos antes.

O segredo residia em nossa “vontade política”, no fortalecimento do Estado na condução econômica e numa diplomacia que, portanto, deveria mostrar ao mundo alternativas a consensos forjados em Washington ou em Davos.

A política externa de Dilma bem que tentou seguir as pegadas de seu antecessor. Porém a realidade econômica (crescimento minguante) no período 2011-14 esvaziou as ações externas que buscavam realçar a singularidade do modelo brasileiro de inclusão social.

O brilho de um Brasil ascendente foi empanado e, de certa forma, já se pode ver alguma inflexão ao longo de 2015.

O problema é que, juntamente com a perda de força do “modelo brasileiro” como item do discurso da política externa, sobrevieram os pesados escândalos de estatais brasileiras como a Petrobras. No topo disso tudo, a disfuncionalidade da política interna brasileira atinge seu auge.

Com base nesse caótico contexto interno, Dilma foi trocar figurinhas com os altos sacerdotes de Wall Street. Deixou para trás a bronca com a bisbilhotagem das agências de inteligência e foi visitar Obama em Washington.

Ornamentou a presença durante a abertura da Assembleia-Geral da ONU com bem-vindas referências ao comprometimento brasileiro com regimes multilaterais de desenvolvimento sustentável.

Foi à Colômbia e lá acenou com possibilidades de acordo que contrastam com sua inação –e a de seu predecessor– em termos de tratados comerciais. Nas próximas semanas, Suécia e Finlândia estão na agenda.

Esse renovado interesse na arena internacional traz a Dilma, portanto, um triplo desafio.

Por um lado, muitas das iniciativas em que o Brasil poderia ter embarcado –acordos bi ou plurilaterais de comércio, maior interação com os mercados da OCDE– já se encontram em processo avançado e, portanto, o país chegaria “atrasado” às mesas negociadoras.

Além do que, o Brasil ainda não desarmou seu aparato interno de política industrial protecionista, que constrange sua postura negociadora externa.

Por outro lado, embora a cabeça aponte para atitudes diplomáticas mais realistas e alinhadas com o interesse nacional, há pesados resquícios, no Planalto e no Itamaraty, da diplomacia Sul-Sul como principal eixo de nossa política externa.

E ainda, uma maior atenção da presidente à agenda externa é fácil (e justificadamente) interpretada como tática de erguer uma “cortina de fumaça” sobre seu pior momento interno.

Se uma guinada na política externa for apenas “cosmética”, os próprios parceiros em potencial podem até concordar com a encenação. Sabem que, no limite, é na fraqueza e na vaidade que se extraem as maiores vantagens.

Fonte: Folha de S.Paulo, 14/10/2015.

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