Repetem-se os episódios de quedas sincronizadas das bolsas. O tema do desaquecimento econômico global capturou a psicologia dos investidores, ganhando intensidade a cada novo capítulo. E o epicentro da crise é a economia dos Estados Unidos. A maior economia do mundo está cada vez mais vulnerável. A expansão econômica de 1995 a 2000 foi impulsionada por ondas de investimentos das empresas em inovações tecnológicas. Mas a recuperação de 2002 a 2006 foi artificialmente estimulada por juros baixos, o que causou a bolha imobiliária e a explosão do consumo à base de hipotecas e endividamento excessivo.

Aprofunda-se a dimensão financeira da crise, com a contaminação dos mercados de crédito. Não há mais compartimentos estanques. Originando-se no setor de construção residencial, o contágio atingiu o setor financeiro por meio da inadimplência nas hipotecas. O encurtamento do crédito, a elevação dos spreads de risco e os resgates dos fundos lastreados em instrumentos de crédito à base de colaterais do setor imobiliário estão forçando uma desalavancagem generalizada. Uma rápida liquidação de ativos, derrubando preços e impondo enormes perdas de capital em pequenas janelas de tempo.

Este novo episódio não terá a curta duração dos anteriores. Em maio-junho de 2006, tivemos uma crise setorial, fruto do impacto dos juros altos sobre as empresas de construção residencial. Em janeiro-fevereiro de 2007, foram atingidas as empresas de financiamento de alto risco, uma crise ainda circunscrita ao setor imobiliário. Em seu novo estágio, a crise agora é bem mais complexa. A contaminação dos mercados de crédito e a desalavancagem generalizada como um movimento forçado são fenômenos cataclísmicos no mundo das finanças. São a matéria-prima das grandes crises históricas. As quedas nas bolsas sempre foram a ponta dos icebergs. Abaixo da superfície das águas, mesmo turbulentas, dos mercados acionários, ao fundo das crises financeiras épicas estiveram sempre os mercados de crédito e a alavancagem excessiva. Parafraseando Simonsen, o crash nas bolsas aleija, mas o crunch no crédito mata.

Não é ainda o fim do mundo – nem mesmo na versão estritamente americana. Pois as perdas nas bolsas e nos ativos imobiliários não abalaram até o momento a coluna central do templo, a massa de consumidores responsável por dois terços da demanda nos EUA. É bem verdade que pode ser apenas uma questão de tempo, pois o efeito riqueza que excitou o consumo, sustentando o crescimento do PIB e a geração de empregos, deve agora exercer o efeito contrário.

A queda sincronizada dos mercados acionários, em antecipação à ameaça de desaquecimento global, é compreensível. Mas, mesmo se avança a dimensão financeira da crise nos EUA, seriam ainda prematuros prognósticos pessimistas quanto ao futuro desempenho da economia brasileira. O efeito riqueza pela queda das bolsas sobre o consumo interno é desprezível. Os preços das commodities, embora voláteis, oscilam dentro de faixas de flutuação em elevados patamares. Permanece robusto nosso balanço de pagamentos. Por enquanto a crise é lá fora.

O Globo, 06 de agosto de 2007

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