Sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
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Por que os “progressistas” são, na verdade, conservadores

Meu comentário de ontem listou duas dezenas de inconsistências intelectuais do pensamento dito de esquerda, ou “progressista”, como eles gostam de ser chamados. Hoje, pretendo falar daquela que, a meu juízo, é a maior das incoerências desses seres estranhos e profundamente contraditórios.

Os “progressistas” são todos profundamente intervencionistas

Quem já debateu com intelectuais “progressistas” sabe que não há ofensa maior para eles do que chamar o oponente de “conservador”. Por alguma razão que desconheço, a alcunha de “conservador” seria uma síntese de tudo de ruim que eles enxergam numa pessoa com idéias distantes das deles.

O problema é que, paradoxalmente, pelo menos numa importantíssima área das organizações humanas – a economia -, os chamados progressistas são tão ou mais conservadores que o mais empedernido direitista. Evidentemente, a maioria dos esquerdistas entra em parafuso quando é chamada de conservadora, mas o fato é que eles são profundamente avessos às intempéries do mercado, e sentem-se muito desconfortáveis diante das incertezas que esse mercado representa, tanto ou mais até que os conservadores em relação às questões sociais.

Muito por conta desse dinamismo e dessa incerteza em relação ao futuro, o livre mercado (laissez-faire), preconizado pela Escola Clássica, embora tivesse trazido volumes de riqueza até então impensáveis aos países que o abraçaram, foi sendo paulatinamente substituído, principalmente no decorrer do século XX, por um novo arranjo institucional, na verdade uma teratologia apelidada de capitalismo de estado, um meio termo entre o livre mercado e o socialismo.

O processo de substituição foi bastante facilitado pelo fato de que muito poucos estavam dispostos a defender, politicamente, o laissez-faire. Não é de admirar. O liberalismo, afinal, é muito arriscado, pouco previsível e totalmente incontrolável, seja por empresários, políticos ou acadêmicos. Tal modelo, embora possibilite uma acumulação coletiva extraordinária de riqueza, está longe de ser um caminho seguro para o sucesso individual.

Avessa aos riscos e profundamente temerosa das incertezas em relação ao futuro, a esquerda idealiza a economia como um sistema estático, bem arrumado e imune a turbulências. Rejeitam com todas as suas forças a poderosa dinâmica do capitalismo liberal, em que um complexo padrão de organização (espontânea) é obtido a partir de uma aparente falta de planejamento, preferindo modelos supostamente bem planejados e perfeitamente harmônicos – como se isso fosse possível.

Como bem descreveu Warren Meyer, os “progressistas” sentem-se tão oprimidos pelo jogo do livre mercado como o homem primitivo se sentia em relação ao seu ambiente natural. Assim como este sentia-se confuso e com medo de tempestades, terremotos, secas e doenças, os “progres” sentem-se desconfortáveis e amedrontados com a ascensão e queda de empresas, booms e recessões, instabilidade do emprego, riqueza de uns e pobreza de outros.

Com efeito, da mesma maneira que os homens primitivos inventaram deuses e mitos para tentar trazer ordem ao caos, além de um sentimento de controlabilidade sobre os eventos que eles não entendiam, os “progressistas” confiam intransigentemente em governos, na esperança de impor, de cima para baixo, uma ordem estável aos mercados.

Não por acaso, entre outras políticas econômicas, eles pregam o protecionismo, contra a globalização, favorecem a ajuda governamental contra a falência de bancos e grandes empresas, defendem regulamentações trabalhistas que protejam os empregos a todo custo, a fixação das taxas de juros e de câmbio pelo governo e, não raro, a fixação e o controle de preços. Até mesmo as novas tecnologias e inovações, que beneficiam os consumidores e aumentam a produtividade dos trabalhadores, são vistas pelos pseudo-progressistas como perigosas ameaças, já que o curto prazo é o seu horizonte mais distante.

Em recente pronunciamento, a candidata socialista Hillary Clinton, por exemplo, disse que está pronta a discutir e repensar tudo que possa ameaçar os empregos e os salários dos trabalhadores americanos, inclusive a globalização, as novas tecnologias e as inovações apelidadas de “sharing economy”, como Uber e Air-bnb – nada poderia ser mais emblemático do conservadorismo progressista de que falamos do que ouvir isso da boca de um de seus ícones contemporâneos.

Como o capitalismo (o verdadeiro) é baseado em escolhas e decisões individuais, suas recompensas e resultados não podem ser divididos igualitariamente sem desvirtuar completamente o complexo mecanismo de incentivos que o transforma na mais poderosa máquina de produção de riquezas jamais criada, os progressistas sentem-se extremamente desconfortáveis com ele. Aliás, não é outra a razão por que eles sempre odiaram também a competição e as políticas de mérito.

Ironicamente, como nos lembra Meyer, embora os “progressistas” gostem de ser vistos como indivíduos “dinâmicos” e “descolados”, o dinamismo e do capitalismo liberal é, de fato, deveras assustador para eles. Empresas nascem e morrem, empregos vêm e vão, riquezas se esfarelam, tudo isso numa velocidade que os faz tremer como os nossos ancestrais diante de um trovão. Definitivamente, para quem quer estabilidade e segurança, o mecanismo de “destruição criadora” do capitalismo pode ser um pesadelo sem fim.

Na verdade, o que os “progres” mais gostariam é de poder transformar o caos dinâmico em ordem estática, para ter certeza de que os empregos de hoje estarão lá amanhã e na próxima década, pagando, pelo menos, um salário mínimo de X – a propósito, adivinhem por que eles são tão apaixonados por empregos públicos?

Enfim, se os “progressistas” são todos profundamente intervencionistas, é porque acreditam que só um Leviatã com poderes ilimitados pode trazer a ordem, a segurança e o controle que eles tanto desejam, assim como os deuses do passado davam aos antigos alguma sensação de segurança em relação às forças da natureza que eles não compreendiam.

Fonte: Instituto Liberal, 16/07/2015.

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