Cassar Sarney não é ameaçar o Senado. É imperativo ético justamente para salvar a instituição da representação política, sem a qual não há democracia! Pois o show de devassidão e desprezo pela cidadania com que uma quadrilha de senadores está a afrontar o país é o maior incentivo à corrupção generalizada. Imaginem os milhares de políticos de escalões inferiores e demais delinqüentes de colarinho branco que não estão a estas horas seguros da impunidade e de que também podem aprontar, roubar o patrimônio público e levar vantagem sobre a maioria dos pacatos cidadãos cumpridores das leis! É a máxima de que no Brasil o crime compensa. O mau exemplo que realimenta a cultura de impunidade, a violação legal e a violência social. Quando não há registro na história da humanidade de sociedade que tenha prosperado sem que, pelo menos parte de suas elites, não apenas tenha cumprido, como tenha se obrigado a cumprir e a fazer cumprir as leis.

O argumento esfarrapado da generalização da má conduta e do nivelamento por baixo, do tipo “eu faço por que todo mundo faz”, não nos desculpa da omissão, mas, isto sim, nos rebaixa todos a meros cúmplices. Adágios populares deixam tácitos os contratos sociais da cumplicidade e da impunidade, acima mesmo dos valores de todo o ordenamento legal da sociedade. Seja o natural “quem tem rabo de palha não toca fogo no rabo do outro, ou a sua variação mais cultural “quem tem telhado de vidro não joga pedra no do outro.” E a questão que se coloca agora muito clara para grande parte da sociedade é se somos, mesmo, uma verdadeira “república de rabo preso”? O que o rabo tem a ver com as calças? Como se esta miserável cultura política fosse uma fatalidade histórica.

Como se a própria cultura fosse imutável, uma condenação irremediável ao fracasso civilizatório. Quando sabemos que se a família se dilui, a religião se vende, a educação falha e a justiça periclita, temos ainda a mídia como nosso melhor sistema de (re)produção de valores.

Pois não há notícia de sociedade civilizada que requeira certidão de beatitude de um cidadão que queria constranger um outro cidadão por um delito praticado. E se esta questão começar a ecoar na mídia, se este nexo se estabelecer claramente diante de nossos costumes políticos de omissão e cumplicidade, se esta ficha cair no espírito de indignação pelo menos de parte dos que se dizem elites, o sacrifício de Sarney terá valido a pena e terá sido marco, símbolo e senha para a revolução de nossos costumes políticos e a formação de milhões de novos e plenos cidadãos.

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