Sábado, 10 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Por que o país parou?

O país passa atualmente por uma crise sem precedentes na sua história econômica. O PIB declinou 3,8% em 2015 e as previsões indicam uma queda na mesma magnitude em 2016. Ou seja, é provável que a economia diminua mais de 7% em dois anos. O que tem causado essa queda tão grande na atividade econômica? O que podemos fazer para retomar o crescimento econômico?

Parece claro que os fundamentos econômicos são insuficientes para explicar a queda atual na atividade econômica. Na história econômica brasileira só tivemos dois anos seguidos de recessão em períodos de graves crises internacionais ou de moratórias. Por exemplo, a economia brasileira decresceu 4,2% entre 1929 e 1931, devido à quebra da bolsa de Nova Iorque que causou uma crise global. Entre 1980 e 1983 o PIB caiu 6,2%, como resultado dos choques do petróleo e das mudanças nas taxas de juros internacionais que provocaram uma grande recessão mundial. Em 1990, quando o governo Collor confiscou 80% de todos os depósitos em conta-corrente, aplicações financeiras e poupança por 18 meses, a recessão foi de 4,3%, mas o país voltou a crescer logo no ano seguinte.

Apesar dos erros graves e recorrentes de política econômica dos últimos 10 anos, que certamente contribuíram muito para que chegássemos à situação atual, é difícil acreditar que somente as incertezas com relação à solvência fiscal do Estado possam justificar uma recessão maior do que a que ocorreu naqueles anos em que graves eventos ocorreram, muitas vezes em escala global. Além disso, a desaceleração mundial está afetando muito mais o Brasil do que outros países, o que indica que nossos problemas foram gerados internamente.  Afinal, o que está causando uma recessão tão grande por aqui?

Ocorre que o país está passando por uma serie de mudanças institucionais que estão provocando uma mudança brusca no jeito de fazer negócios no Brasil que está deixando alguns dos atores-chave da economia brasileira paralisados. Essas mudanças, que começaram com o julgamento do “mensalão”, continuaram com a proibição da contribuição de empresas privadas para as campanhas eleitorais e prosseguem com a operação “Lava-Jato”, estão mudando o jeito como o país funciona. E o governo não está conseguindo fazer uma transição rápida para um novo modus operandi.

No Brasil sempre existiu uma relação estreita entre uma parcela dos empresários e a burocracia estatal. Ela foi descrita pela primeira vez por Raymundo Faoro em seu livro “Os Donos do Poder – Formação do Patronato Político Brasileiro” e dissecada recentemente pelo professor Sergio Lazzarini em seu livro “Capitalismo de Laços”, que mostra claramente como funciona a relação entre alguns grupos empresariais locais e o setor público, misturando influência política, doações para campanhas eleitorais e acesso preferencial ao crédito.

Porém, nos últimos anos o Judiciário brasileiro decidiu mudar as regras do jogo. Assim, alguns dos elos centrais dessa rede de laços estão presos, como parte da Operação Lava-Jato. Essa mudança, ao mesmo tempo em que está mudando para melhor as instituições brasileiras, está paralisando o país no processo de transição para o novo regime. Empresas controladas de alguma forma pelo Estado, que em 2009 formavam 33% do mercado acionário brasileiro, ainda segundo Sergio Lazzarini, estão paralisadas. Daí a queda de 14% nos investimentos em 2015. Esse modelo econômico foi sendo construído ao longo de 500 anos e ninguém sabe o que fazer agora que ele está desmoronando.

Que políticas econômicas teriam que ser adotadas para que o país volte a crescer? Precisamos ter, nas palavras de Mário Covas, um “choque de capitalismo”. No novo regime será necessário, em primeiro lugar, afrouxar os fortes laços existentes entre o setor público e parte do empresariado nacional e deixar mais claras as regras do jogo que vão governar essa relação daqui para a frente.

Nesse sentido, é essencial manter a proibição de contribuição por parte de empresas privadas para as campanhas eleitorais. É necessário também preparar rapidamente a economia para a vida num cenário alternativo, em que as regras são claras para todos, fortalecendo as agencias reguladoras, por exemplo.

Além disso, será necessário reavaliar todas as políticas de incentivo ao desenvolvimento regional e à inovação e aumentar a concorrência internacional, diminuindo as barreiras tarifárias para o comércio. Por fim, seria importante privatizar ou pelo menos regulamentar a gestão de todas as empresas estatais, se possível mantendo sob controle direto do Estado somente as que atuam em setores com falhas de mercado, tais como segurança, saúde e educação. Precisamos dar liberdade para que os empresários realmente inovadores possam crescer e aumentar a produtividade da economia brasileira.

Finalmente, nesse novo capitalismo será importante dar igualdades de oportunidades para todos os brasileiros, independentemente de terem nascidos em famílias pobres ou ricas. Assim, será necessário focar em desenvolvimento infantil, educação e saúde, aumentar a eficiência dos gastos nesses setores e permitir a operação de escolas “charter”, que atendem alunos da rede pública mas são geridas pelo setor privado.

Precisamos urgentemente fazer a reforma da Previdência, mas não deveríamos desvincular as despesas de saúde e educação das receitas de impostos, pois isso certamente faria com que os nossos prefeitos gastassem em obras o dinheiro que poderia ser investido em capital humano. Em suma, nas palavras do economista Luigi Zingales, precisamos “salvar o capitalismo dos capitalistas”.

Fonte: “Valor econômico”, 18 de março de 2016.

Escreva um comentário

Seu e-mail não será publicado.