Por que precisamos de outros Eikes

O brasileiro Eike Batista, com uma fortuna calculada em US$ 27 bilhões, acaba de ser incluído entre os novos heróis do capitalismo global, ao lado de figuras mais conhecidas, como o inovador Bill Gates, americano que criou a Microsoft (cuja fortuna é de US$ 53 bilhões) e o surpreendente Carlos Slim, mexicano dono de um império de telecomunicações (e de US$ 53,5 bilhões). A lista dá pistas importantes sobre o que sobra e o que falta na economia mundial.

O mundo tem hoje excesso de mão de obra, com a entrada de bilhões de eurasianos no mercado de trabalho global. Sobra também tecnologia, com os setores empresariais ainda digerindo a recente onda de inovações e particularmente a convergência de mídia, telecomunicações e internet. E há dinheiro barato no mundo inteiro. O que falta são empreendedores, fator essencial para o sucesso nos negócios.

No momento em que boa parte do dinheiro no mundo elege o Brasil como prioridade para seus investimentos, e quando nossa poupança interna se desloca de forma benigna para o mercado de ações, a fulminante ascensão de Eike Batista é um prêmio a seu empreendedorismo.

Estão em alta os preços das ações listadas nas Bolsas de todo o mundo. Os governos mantêm suas políticas de aquecimento da demanda. O esforço sincronizado na tentativa de evitar uma Grande Depressão garantiu a recuperação dos mercados acionários, ainda que permaneçam frágeis a atividade econômica, a expansão do crédito e os mercados de trabalho nas economias avançadas.

As Bolsas podem ter dificuldade em manter o ritmo de elevação até aqui registrado em razão dessa fragilidade nos fundamentos das economias avançadas. Mas podem também se recusar a cair, boiando na superfície da formidável maré de liquidez injetada pelas autoridades monetárias. Nesta semana, tanto o Banco Central do Brasil quanto o Federal Reserve, o banco central americano, mantiveram suas políticas de juros mais baixos, na tentativa de manter o fôlego da recuperação econômica.

A fulminante ascensão do bilionário brasileiro é um prêmio a seu empreendedorismo

Se as ações perderem seu impulso de alta, mas também se recusarem a cair (mesmo com volatilidade), o prêmio ao empreendedorismo continuará existindo nos próximos anos na Bolsa brasileira. Porque o valor das empresas listadas em Bolsa permanecerá acima do custo de criação de empresas semelhantes às existentes. O que garante que haverá uma enxurrada de novos lançamentos nos mercados acionários, com os papéis dessas novas empresas significando a chegada dos empreendedores em resposta ao chamado das Bolsas.

Eike captou recursos nas Bolsas, comprometendo-se com a criação de novas empresas de óleo e gás, mineração, logística e agora de construção naval. Quando o preço das empresas listadas excede o custo do investimento na elaboração de um plano de negócios para o setor e na arregimentação dos recursos produtivos necessários ao empreendimento, configura-se um prêmio ao empreendedor que se arrisca a coordenar o processo de criação do negócio. Os empreendedores garantem uma renda contratual a esses recursos arregimentados – capital, trabalho, tecnologia e recursos naturais –, assumindo os riscos do negócio e ficando com o lucro ou o prejuízo.

O fenômeno será particularmente agudo no Brasil, pois temos pouco mais de 470 empresas em Bolsa. Eram mais de 1.400 quando ingressei no mercado financeiro, 25 anos atrás. No momento em que o mundo procura ativos no Brasil, temos poucas mercadorias na vitrine, criando um formidável ágio para os empreendedores. E o país, que no passado recente foi o paraíso dos rentistas e o inferno dos empreendedores, assiste agora à mudança de seu eixo econômico em direção ao setor real da economia.

Pela relativa escassez, ainda mais aguda no Brasil, o empreendedorismo é o mais valioso recurso produtivo da nova ordem econômica mundial. Dele dependeremos também para a recuperação de nossa dinâmica de crescimento, baseada em um mercado interno de consumo de massas.

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