Ano vai, ano vem e há algo que não muda na sociedade brasileira: o número de mendigos em sinais. Já se falou de tantas soluções que é difícil lembrar de uma única que seja. Trabalhos sociais com o objetivo de tirá-los das ruas? Centenas, talvez milhares. E nunca se ouviu falar de uma única análise de custo-benefício destas políticas. Talvez, aposto, o resultado seja óbvio: muito pouco se consegue apesar de tanto esforço.

Os mendigos estão nas ruas, nos sinais. Li, outro dia, uma destas correntes que circulam pela rede, com uma estimativa sobre o ganho dos mendigos em um mês. Nada muito complicado. O autor anônimo pensou em um sinal de trânsito que muda a cada 30 segundos e em um mendigo que fatura aproximadamente R$ 0,10 neste meio minuto. Com 8 horas diárias, em 25 dias no mês ele fatura R$ 0,10 x 60 x 8 x 25 = R$ 1.200,00, livre de impostos. A graça da corrente é dizer que o mendigo, em média, ganha mais que um estagiário.

Ao ler a mensagem, eu me dei conta do porquê de termos sempre mendigos nos sinais, pedindo uns trocados. Por que o poder público não os tira, definitivamente, das ruas? Por que a tolerância? De repente, tudo ficou claro: os mendigos são exatamente como nossos políticos. Um reflete o outro, como num espelho, só que em um nível de riqueza diferente.

Com as usuais e honrosas exceções (não me pergunte o nome deles), o político faz malabarismos para fingir que está legitimamente interessado em você, em sua vida. Adora fugir dos impostos e não está nem um pouco preocupado em se esforçar para viver. Prefere muito mais o caminho fácil dos subterfúgios. Quer contar com sua caridade na hora do voto e sua compreensão quando for pego com dólares na cueca. A culpa do político fazer o que faz com seu dinheiro, claro, não é dele: é da sociedade, do capitalismo, dos EUA. Nunca, claro, a culpa lhe pertence.

Tirar o mendigo da rua com leis que diminuam os custos para a contratação vai contra o interesse dos sindicatos que o apóiam. É contra a lógica que defende: a de que a lei é apenas uma ferramenta para obter privilégios para si, socializando pobreza e concentrando riqueza. O poder público deve lhe servir, pois é um incomprendido – um destes pedagogos moderninhos diria que ele tem “déficit de atenção” – um infeliz, um sujeito que não teve a chance que merecia no setor privado. Daí a vida pública que escolheu. E olha que fez sacrifícios!

Quem somos nós para condená-los? Muitos de vocês, leitores, até lhe mendigam favores! Também, pode-se dizer, com uma carga tributária de 40% do PIB, o político bem pode dizer: “sabe com quem está falando, meu caro”? O político não pode tirar o mendigo do sinal. Sem o mendigo, ele não existiria, pois ele só se elege porque promete diminuir o sofrimento do mendigo. Mas, uma vez no alto de seu cargo público, de onde pode “dar carteiraços”, o político mostra seu verdadeiro “lado social” e mendiga seu voto, sua compreensão, seu perdão. O mendigo, na verdade, é o alter-ego do político.

Há, claro, diferenças entre políticos e mendigos. A que mais salta aos olhos de quem lê os jornais é óbvia: político, em alguns casos, trabalha menos que 25 dias no mês…

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