Quem enxergou na decisão do governo de utilizar o Banco do Brasil e a Caixa como armas para forçar a redução dos juros um sinal de intervenção no mercado deveria voltar os olhos para o sul. Mais precisamente para a Argentina.

Anteontem, num gesto que lembrou o ditador Leopoldo Galtieri, a presidente Cristina Kirchner tomou de volta as ações da companhia petrolífera YPF que, alguns anos atrás tinham sido vendidas à espanhola Repsol.

A comparação com o general Galtieri, que há 20 anos declarou guerra à Inglaterra em torno das ilhas Malvinas, é óbvia. Naquele momento, não apenas seu governo mas também os militares que o sustentavam no cargo viviam um momento de erosão acelerada de prestígio e popularidade.

A tentativa do ditador foi a de tentar abafar os problemas internos desafiando para a briga um país estrangeiro com o qual tinha diferenças numa questão que tocava os brios do povo argentino.

Ao transformar a Inglaterra em inimiga no campo de batalha, o general ganhou uma popularidade fugaz – mas a estupidez do gesto foi tão grande que logo se voltou contra ele. Ali, ele assinou a sentença de morte de seu governo.

Cristina Kirchner também está escolhendo um caminho sem volta. Ao confiscar as ações da Repsol, ela dá mais uma rasteira no que ainda resta de credibilidade a um país que já foi importante mas que, por culpa das mandracarias dos governantes, hoje é incapaz de atrair bons parceiros.

Nenhum número ou argumento que o governo apresente em defesa de seus interesses pode ser levado a sério. Perto do que se passa ao sul do Rio da Prata, os problemas do Brasil parecem ridículos.

Nesse cenário, a estratégia do governo de tentar reduzir os juros bancários utilizando o BB e a Caixa como chamarizes será seguida pelos bancos privados mais cedo ou mais tarde.

Ontem, o Santander anunciou a redução das taxas cobradas das pequenas empresas em algumas operações de crédito. É o primeiro passo. Logo, logo, as outras instituições de primeira grandeza deverão segui-lo.

Os bancos brasileiros continuarão sólidos e o crédito a juros mais baixos ajudará o país a enfrentar o desafio do crescimento

Em primeiro lugar porque não querem jogar seus clientes no colo dos bancos estatais. Em segundo, porque desejam demonstrar ao governo que podem até concordar com os argumentos, mas não endossam a forma inábil com que o presidente da Febraban Murilo Portugal conduziu a discussão diante do ministro da Fazenda.

Alguns dos principais banqueiros do Brasil entendem que chegou a hora de fazer um gesto de boa vontade em direção a Guido Mantega – e corte de poucos pontos percentuais nas taxas que cobram ajudará bastante.

Este é o xis da questão. A impressão que se tem é a que o governo ganhou a batalha contra os bancos e que haverá, sim, uma redução nas taxas. Isso sem a necessidade de estatizá-los ou de lhes impor um decreto que poderia resultar não no aumento da oferta de dinheiro ao mercado, mas na escassez absoluta de crédito na praça.

Os bancos brasileiros continuarão sólidos e o crédito a juros mais baixos ajudará o país a enfrentar o desafio do crescimento. Ótimo.

Quanto à Argentina, bem… sob Cristina Kirchner, o país se parece com o jogador inveterado do tango “Por uma cabeza”, de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera, que mesmo tendo perdido todo o dinheiro nas apostas erradas insiste em continuar jogando – mesmo sabendo perderá mais uma vez.

Fonte: Brasil Econômico, 18/04/2012

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2 comments

  1. Gilberto Naldi

    Seriam os bancos privados a “Inglaterra” de Dilma/Mantega? É preciso encontrar culpados! Evidentemente, não há como forçar os bancos emprestarem para maus tomadores! Neste caso dos maus clientes, eles poderão dizer: empreste o seu!

  2. Mário Jorge Savanhago

    Penso e por pensar posso estar errado, minha opinião é que já deveria a muito tempo frear esses malditos bancos. Sei que financiam a dívida pública, tudo bem ganham muito pra isso, temos que ser mais coerentes com nosso dinheiro.
    Desde as loucuras do Collor e de Funaro, não tinhamos nada que mostrassem uma luzinha no fim do túnel. Podemos ser ignorantes em economia mas juros são juros, e não vamos pagar a conta da Europa, povo soberbo semvergonha na cara, quanto a Argentina, Meu amigo essa doida tá afundando o pais cada vez que abre a boca, mas não larga o osso. parece político brasileiro, só para lembrar quantos senadores tem na cadeia hoje no Brasil? quantos Governadores tem na cadeia? tem algum politico cumprindo pena por corrupção Ativa, Deputado? Prefeito? … Vereador acho que tem, por causa das diárias…