Pré-condições à mudança de paradigmas

Thomas Kuhn, grande historiador da ciência e autor de “A Estrutura das Revoluções Científicas”, foi responsável por introduzir nos anos 60 o termo “paradigma”, elemento essencial do jogo continuidade-ruptura.

Paradigma nada mais é do que um modelo de interpretação – e ação – que determinado grupo ou indivíduo considera válido. Antes do paradigma keynesiano de intervenção governamental em situações recessivas, a visão clássica era a de que os mercados eram “inteligentes” e soberanos na melhor alocação de recursos. Previamente ao paradigma freudiano na análise de fenômenos psíquicos, o modelo reinante era o da etiologia fisiológica das neuroses.

Dada a constante evolução de tecnologias, costumes e competências que marca nosso quotidiano, a mudança de paradigma nos acompanha a todo instante. Faz parte de nosso “ar do tempo”.

E talvez poucas características deste mundo atual – e do futuro próximo – possam ser tão claramente percebidas quanto o processo de “destruição criativa”.

Quando o economista austríaco Joseph Schumpeter imortalizou a expressão num curto capítulo de 6 páginas em sua obra “Capitalismo, Socialismo e Democracia”, descreveu-a como o “tumulto constante (…) que incessantemente revoluciona a estrutura econômica a partir de dentro, incessantemente destruindo o que é antigo e criando algo novo”.

Além, portanto, de aceitar o fato inquestionável de que nossa vida nacional, empresarial e pessoal é parametrizada por mudanças como único dado constante, precisamos de um paradigma para lidar com a destruição criativa.

É dizer, quebrar a inércia e também rumar o curso da evolução. E, assim, o que é necessário para que países, empresas e pessoas promovam evoluções de paradigma? Para que se estabeleça um consenso em mudar?

Há quatro peças constitutivas desse consenso. A consciência de que a evolução demanda atitudes empreendedoras. O desconforto que a mudança precipita e que “como não é possível vencê-la, cabe unir-se a ela”. A empatia gerada pelo desejo de mudança que produz a base para a construção de novas alianças.

Estas pré-condições ao longo do tempo podem ser obtidas mediante força, teoria ou convencimento. Foi o Estado forte chinês a conduzir nos anos 80 a adoção do paradigma de nação-comerciante na China e na Coreia do Sul com oxigênio democrático rarefeito e a inibição de demandas sociais. A teoria da decodificação do DNA a permitir novas engenharias genéticas. Os discursos de Churchill a convencer os britânicos a uma atitude de resistência e vitória sobre a ameaça nazista.

Três são os motores da construção do consenso. Um líder carismático e esclarecido, com grande capacidade de produzir adesões emocionais e intelectuais, que ascenda a uma posição de autoridade. Um pacto entre elites e lideranças, que congele ambições específicas em nome dos objetivos consensuais. A emergência de casos de sucesso que desempenhem o papel de “role models”.

Para o Brasil, mudança de paradigma é questão de primeira ordem. Nosso modelo é o de privilégio ao mercado interno e à exportação de baixo valor agregado. Estamos distantes de tornarmo-nos uma sociedade intensiva em tecnologias – paradigma dominante do século 21. Arregimentar e pôr em movimento essas pré-condições é nosso grande desafio como nação.

Fonte: Brasil Econômico, 02/08/2011

RELACIONADOS

Deixe um comentário

1 comment

  1. Markut

    ” Um líder carismático e esclarecido, com grande capacidade de produzir adesões emocionais e intelectuais, que ascenda a uma posição de autoridade”.
    Como diz Marcos Troijo,talvez para a nossa realidade este seja um dos motores principais.
    Fico com este, com a melancólica convicção, porem, de que ele depende do aleatório aparecimento de um esperado Messias.
    Ao que se saiba, a função deste improvavel Messias é, mesmo , a de nunca chegar. Outros, até que chegaram, mas o esclarecido, ainda não.