Prelúdios da próxima crise americana

A crise europeia é séria, mas nada comparável à falência do poder americano. Não é apenas uma difícil crise financeira, longe de ter sido controlada. O desapontamento dos mercados não é só com os últimos indicadores frustrantes de “recuperação econômica”.

Não existe recuperação no radar. O fato mais alarmante, no entanto, é a perceptível decadência do “modelo americano” (o American Way of Life).

Os EUA estão perdendo liderança, a passos largos, para um concorrente voraz e implacável, a China. A velocidade desse recuo de poder tem o potencial de adicionar ainda maior incerteza ao quadro econômico do mundo. O analista de mercados tem que começar a entender de política mundial…

O risco político nos EUA é o novo elemento na avaliação dos riscos de crédito em nível planetário. Isso simplesmente não entrava em cogitação até bem pouco tempo atrás.

Quando a empresa brasileira de classificação SR Rating, pioneiramente, examinou em 2009 o risco de crédito soberano (de país) dos Estados Unidos, emitindo um relatório de 110 páginas e a nota inicial no nível AA, o mercado talvez tenha interpretado a iniciativa como um exercício de excentricidade acadêmica.

O fato foi noticiado de modo simpático e brincalhão pela prestigiosa The Economist e mais alguns atentos veículos locais. Passado um ano, em 2010, a agência chinesa de rating Dagong saiu com a mesma nota, confirmando a avaliação da SR.

E avisou que passaria a fazer avaliações regulares dos Estados Unidos, por ser um grande devedor soberano da China. Crédito, quem avalia é o credor, não o devedor.

Até aí, apenas uma mudança na ponderação da influência dos americanos no mundo.

Contudo, ao insinuar, esta semana, que os Estados Unidos preparam uma nova rodada de emissão de moeda falsa, para bombear mais estímulo à sua cambaleante demanda interna, o Federal Reserve, de Ben Bernanke, dá uma clara indicação de ter ficado refém de sua própria teorização monetarista sobre a natureza da crise.

Bernanke, discípulo radical de Milton Friedman, e estudioso da Grande Depressão, virou um banqueiro central obcecado em não repetir o suposto erro dos banqueiros de então.

Ben Bernanke imagina ampliar a inundação de moeda falsa, iniciada em 2008, para salvar a recuperação e, com ela, a estrutura de interesses financeiros por trás de Wall Street. Em parte, conseguiu esse intento.

É a “fase um” do excesso de liquidez, a alegria do morto-vivo. Evitou-se a deflação de preços. Agora tentam criar inflação mesmo, para obter um corte no valor real da dívida pública.

A nova bolha especulativa em commodities é o preço a pagar, com virulência semelhante à verificada antes da Grande Depressão dos anos 1930.

Um dado resume a tragédia americana: o número cadente das empresas listadas nas bolsas de lá. Desde 1997, as listadas em bolsa despencaram 43%! Sumiram do pregão 3.800 nomes. Ainda dá para acreditar no sonho americano?

Enquanto isso, o mundo deu um salto em empresas listadas, mais do que dobrando em vinte anos. São cerca de 45 mil. A China, sozinha, deverá listar mais “um Estados Unidos” nos próximos dez anos.

São essas as diferenças que fazem murchar os estímulos circulatórios de Bernanke. Nada vai funcionar, enquanto as expectativas sobre o futuro dos Estados Unidos apontarem na direção contrária.

Fonte: Brasil Econômico, 10/06/2011

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