O leitor já reparou que as placas dos banheiros dos restaurantes estão cada vez mais confusas? Aquele desenho sofisticado ou aquela foto artística designa o banheiro masculino ou o feminino? Ou será laissez-faire? É bom chegar com espaço na bexiga para acomodar as dúvidas que inevitavelmente surgem.

Mas nem sempre há esse espaço. Nos mercados internacionais, o mesmo problema – excesso de sofisticação e falta de transparência (no caso, dos complexos instrumentos financeiros) – levou à crise. Ninguém até hoje (quase dois anos depois) consegue saber precisamente quanto valem esses instrumentos.

Agora já estamos na fase de identificar a situação não só de ativos financeiros, mas de economias inteiras. Por exemplo, há salvação para as economias altamente endividadas do Leste Europeu (Hungria, Ucrânia, Letônia)? E a economia russa sobrevive com esse preço menor do petróleo (sem falar na Venezuela)? E o México consegue compensar a queda das significativas remessas dos mexicanos que vivem nos EUA? Mais ainda, a crise já põe em xeque o futuro de países centrais na Europa, como Portugal, Itália, Grécia e Espanha, ironicamente denominados PIGS, acrônimo de suas iniciais em inglês.

O Leste Europeu parece ser o elo mais fraco da corrente. O período recente de boom caracterizou-se por empréstimos em moeda forte para financiar os consumidores e os mutuários em vários desses países. Os bancos da Europa Ocidental foram os maiores financiadores dessa farra. Agora estão todos em apuros. Estima-se que a queda do produto interno bruto (PIB) na Hungria, Ucrânia e Letônia seja de 6%, 12% e 15%, respectivamente. A dívida externa da Hungria é de 100% do PIB e este ano são necessários quase 30% do PIB para financiar suas contas externas. Os outros países do Leste Europeu – Polônia, República Checa, Romênia, etc. -, apesar de um pouco melhor, também estão em apuros. Não há dinheiro próprio nesses países para saírem da crise.

A dúvida atual é se a União Europeia vai pagar essa conta salgada ou permitir a quebra de alguma economia (“à la Argentina”, fala-se por lá). O problema é que a situação não se restringe aos países do Leste Europeu. Duvida-se da capacidade de os PIGS navegarem com segurança nesta crise. E, juntando os PIGS, os problemas atingem uma parcela significativa do PIB europeu e dos recursos financeiros.

Uma quebra econômica dentro da Europa poria em risco o projeto político da União Europeia, mas uma ajuda financeira dessa magnitude poderia arrastar o resto das economias, no típico “abraço dos afogados”. A pergunta que não quer calar é: há dinheiro suficiente para pagar toda essa conta da crise?

Crescentemente, a sensação é que não. A necessidade de utilização de recursos fiscais, seja dos próprios contribuintes ou dos países ricos, tem gerado stress considerável e elevado o risco de calote em várias economias. Com o nível de atividade caindo, como recuperar a capacidade de fazer frente a esses custos da crise que se acumulam? Uma alternativa clássica é o uso da política monetária para sustentar a economia e evitar uma queda mais drástica da arrecadação.

Mas em muitos países falta espaço para quedas adicionais de juros, seja porque estes já se encontram em patamares próximos de zero ou porque há outros limites à queda, como a depreciação contínua de suas moedas (juros mais altos seriam necessários para interromper essa depreciação, que encarece em demasia as dívidas em moeda forte, ou controlar o repasse cambial aos preços domésticos, em alguns casos).

Alguns já estão usando toda a artilharia para cuidar dos problemas domésticos. O orçamento do novo presidente Barack Obama nos EUA, por exemplo, implica um déficit de 12,5% do PIB, este ano, para pagar a conta da crise no sistema financeiro e estimular a economia, uma vez que os juros já se encontram no seu limite inferior.

No Brasil, a nossa tendência histórica de adotar uma política macroeconômica assimétrica – política fiscal expansionista e política monetária compensatória (ou seja, os gastos públicos crescem sem respiro e os juros são mantidos altos para controlar a inflação) – pode ser, ironicamente, o nosso diferencial. Basta reverter a tendência: ter uma política monetária mais expansionista e uma política fiscal mais responsável.

O espaço para a reação correta agora existe. A queda de juros será proporcional ao espaço outorgado pela política fiscal. O desafio existe. A queda de arrecadação já se mostrou significativa neste começo de ano, devida à desaceleração da economia e às isenções dadas pelo governo. E tudo indica que a queda da arrecadação vai continuar ao longo do ano. Uma atitude passiva é a mais cômoda: deixar o superávit primário cair, para acomodar a queda de arrecadação, e não mexer nos gastos programados anteriormente. Mas, desta forma, mantemos o padrão dos últimos anos e não maximizamos a queda dos juros e o benefício coletivo (ao invés de setores específicos beneficiados pelo governo).

Em suma, está ficando claro que a conta total da crise é muito alta e vão faltar recursos fiscais para resgatar todas as economias do mundo. Vários países não têm opção, dado que acumularam poucas reservas (relativamente à sua dívida externa) e esgotaram a sua capacidade de utilizar a política monetária (reduzir juros). O Brasil deveria aproveitar as suas condições favoráveis iniciais e diferenciar-se dos países em dificuldade: evitar a queda brusca do superávit primário (em função da queda da arrecadação) e, assim, abrir espaço para uma queda maior dos juros. Com isso evitaria colocar-se numa situação de déficits fiscais crescentes, com limites à capacidade de reduzir os juros. Nada mais comum hoje no mundo, nada mais letal.

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