Problemas na vista

Algumas anotações sobre o dia 15 de março de 2015, uma data que vai entrar para a história deste país:

No dia seguinte às maiores manifestações de rua já ocorridas no Brasil contra um governo, a presidente Dilma Rousseff fez um pedido de paz: “Vamos brigar depois”. Foi uma das coisas mais interessantes que disse desde que chegou à Presidência da República, há pouco mais de quatro anos, principalmente se estiver falando a sério. O país precisa resolver hoje um caminhão de problemas – e se não tiver paz é absolutamente garantido que não conseguirá resolver nem um deles. Propostas de cessar-fogo entre as partes, é claro, sempre são mais atraentes para a parte que está debaixo de chumbo grosso, com mais de 60% de reprovação popular, mas e daí? A maioria daquele povo todo que foi para a rua não quer ganhar uma discussão; quer ver melhorias concretas, e logo, naquilo que está ruim. Era de esperar, pelos instintos naturais do atual governo, que a presidente reagisse com ira, rancor e ameaças à inédita condenação que sofreu em praça pública. Preferiu reagir com a razão. Menos mal; muito menos mal.

A presidente Dilma não quer guerra, mas não sabe o que fazer da paz

Ficou claro no dia 15 de março que o Brasil é um país onde se vive com liberdade. “Grande coisa”, diz muita gente boa. “Isso é o mínimo.” Mas é coisa grande, sim, e sempre é preciso tomar muito cuidado com a palavra “mínimo”, pois ninguém consegue saber na prática quanto é, exatamente, esse mínimo. Vale a pena, por ora, lembrar que o Brasil provou no domingo que não é a Venezuela, atual país-modelo para a esquerda nacional e para as seitas do governo que vivem à procura do fim do mundo. Na Venezuela, os donos do poder não respondem a manifestações de protesto com apelos à paz. Respondem aprovando o uso de armas de fogo real contra quem protesta e jogando opositores na cadeia por quanto tempo lhes der na telha; justo quando a população brasileira ia para as ruas, montaram mais uma trapaça para dar a si próprios poderes ainda maiores do que já têm. Foi dito que o governo brasileiro só aceita as liberdades públicas e o direito à livre expressão porque não consegue fazer diferente. É possível. Mas o que vale na vida real não é o que o governo gostaria. É o que está valendo.

A presidente Dilma não quer guerra, mas não sabe o que fazer da paz. Antes das manifestações, o governo vinha sofrendo uma bela combinação de problemas na vista: é míope para as realidades de hoje, vesgo para o que quer fazer amanhã e cego para admitir mérito em qualquer ponto de vista diferente dos seus. Depois das manifestações, continuou igual. As primeiras medidas que anunciou como resposta foram uma obra-prima na arte de propor mais do mesmo. Há cerca de dois anos, após a soma de protestos e baderna que balançaram o coreto das autoridades, Dilma veio com “cinco pactos” para baixar a tensão. Não levou adiante nenhum, e agora volta oferecendo pinga da mesma barrica. Há, outra vez, esse cansado “pacote anticorrupção”. Mas que diabo o governo estava esperando para combater a ladroagem? Será que só agora começaram a roubar o Erário? Mais infeliz ainda é a “reforma política”, uma piada que não resolve um único dos problemas que já existem e cria mais um, novo em folha, ao propor que o Tesouro Nacional pague as despesas das futuras campanhas eleitorais. (Imagine-se 1 milhão de pessoas na rua gritando: “Financiamento público para os candidatos, já!”.)

As informações divulgadas sobre o número de pessoas presentes às manifestações comprovam, mais uma vez, a desimportância sem limites de um certo tipo de conta. Dos dois cálculos para o ato de São Paulo, de longe o maior de todo o Brasil, um informava que havia 1 milhão de pes­soas presentes, o outro, que havia 200 000. A manifestação da Avenida Paulista teve um tamanho só – aquele que todos puderam enxergar com os próprios olhos, sem a necessidade de helicópteros e planilhas de computador para lhes dizer o que estavam vendo. Foi o maior ato público que alguém já viu? Foi. Fica maior ainda se alguém disser que havia 1 milhão de pes­soas? Não. Fica menor se disserem que havia 200 000? Também não. Vida que segue, então. De mais a mais, números servem para qualquer coisa. O governo, ao que parece, ficou feliz com os 200 000, cifra que considerava uma alucinação até quinze dias atrás. Mas também poderia achar que 1 milhão de pessoas é um fracasso de público; afinal, isso representa apenas 0,5% da população do Brasil. É melhor deixar ao gosto de cada um. Não muda rigorosamente nada.

Fonte: Veja, 25/03/2015.

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