Produtividade e exportações

Dois problemas econômicos (entre muitos outros) têm preocupado o governo e os analistas econômicos recentemente: a produtividade, que tem crescido a taxas muito reduzidas nos últimos 35 anos, e as exportações, que fizeram com que o nosso saldo comercial em 2014 fosse o pior nos últimos 15 anos. Qual a razão por trás desses problemas? Será que eles estão relacionados?

A raiz desses dois problemas é a mesma e reside no baixo dinamismo nas nossas empresas, que é agravado por políticas públicas equivocadas. Os analistas que preveem um grande surto exportador advindo da desvalorização cambial ainda estão presos a um paradigma antigo do comércio internacional. Segundo essa visão, o que importa para as exportações são primordialmente as vantagens comparativas de um país, sua taxa de câmbio e o crescimento da renda interna e externa. No entanto, a nova teoria do comércio internacional enfatiza fatores bastante distintos.

Essa nova teoria destaca muito mais o papel das empresas individuais do que o setor ou o país em que elas atuam. Na verdade, os estudos empíricos têm demonstrado que as firmas exportadoras são aquelas que já tinham maior dinamismo antes de começar a exportar, advindo das habilidades gerenciais, qualificação da força de trabalho e taxas de inovação. Os mesmos fatores que afetam o crescimento da produtividade. Assim, num mundo em que a competição é cada vez maior, o crescimento da produtividade é pré-requisito para o crescimento das exportações. É aí que residem nossos problemas.

Desvalorização cambial não será suficiente para estimular as exportações de forma consistente

Alguns episódios históricos ilustram bem esse fato. Um deles foi o processo de liberalização comercial, quando as tarifas de importação caíram de 60% em 1988 para 15% em 1995. Como resultado desse processo, as firmas ineficientes do setor industrial foram eliminadas da economia e as firmas mais eficientes ganharam espaço. Isso fez com que a produtividade média do setor industrial crescesse 10% a mais nesse período. Parte desse ganho ocorreu também devido ao acesso a insumos importados de melhor qualidade, que eram absurdamente caros antes da abertura. Ou seja, competição e acesso a insumos importados melhoram a produtividade. Políticas de conteúdo nacional têm o efeito contrário.

Entre 1995 e 2000 nada aconteceu, empresas ineficientes voltaram a prosperar e nossa produtividade ficou estagnada. Depois, veio a China. Em 2000 os chineses representavam apenas 2% das nossas importações e exportações, mas em 2010 já tinham atingido 15%. O papel crescente da China no comércio internacional tem sido bastante pesquisado. Nos países europeus, por exemplo, a concorrência com a China provocou um aumento da produtividade, com mais inovações e deslocamento da produção para firmas mais eficientes, juntamente com um aumento da demanda por trabalhadores mais qualificados. Ou seja, quando ameaçadas por produtos chineses, as empresas europeias reagiram aumentando as inovações e a produtividade.

E no caso brasileiro? As evidencias mostram que no caso brasileiro aconteceu o contrário. A competição com os produtos importados chineses também provocou eliminação das firmas mais ineficientes, mas as empresas industriais sobreviventes reagiram às importações chinesas passando a produzir bens menos intensivos em capital, tecnologia e trabalho qualificado. Assim, a produtividade nos setores mais atingidos pelas importações chinesas diminuiu.

Mas o comércio com a China também trouxe benefícios. As empresas que sobreviveram passaram a importar insumos melhores e mais baratos de lá. Os setores agrícolas e de produtos básicos se beneficiaram muito com as exportações. E o dinheiro vindo da China irrigou as políticas de expansão da economia nos anos 2000, permitindo a expansão do gasto público e ampliação do consumo interno. E ganharam os trabalhadores menos qualificados, que foram mais procurados pelo deslocamento da produção para bens menos sofisticados.

Mas, por que será que a maior parte das nossas empresas não consegue competir nem mesmo com a China, que tem um PIB per capita menor que o nosso e que permaneceu décadas fechada atrás da “cortina de ferro”? Basicamente porque nosso setor industrial nasceu com base no protecionismo e vive de políticas protecionistas até hoje. Além disso, nossa carga tributária é complexa e desestimula o crescimento das empresas pequenas que são beneficiadas pelo “Simples”. A qualidade da educação continua muito baixa e a infraestrutura é deficiente. E o governo resiste a fazer acordos de livre comércio, que permitiriam às firmas brasileiras maior inserção nas cadeias globais de comércio.

Em suma, proteção, favores e subsídios somente agravam o nosso problema. Nossas empresas não conseguem aumentar suas exportações porque não têm produtividade suficiente para conquistar mercados internacionais. Não conseguimos competir com as empresas chinesas, que são mais eficientes e avançadas tecnologicamente.

Desta forma, a desvalorização cambial não será suficiente para estimular as exportações de forma consistente. Somente uma nova rodada de abertura comercial, com mais concorrência e acesso mais barato aos melhores insumos importados poderá fazer com que as nossas empresas consigam aumentar sua produtividade e com isso as nossas exportações.

Fonte: Valor 20/03/2015.

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