Professor, o que eu faço?

O ensino universitário é, por excelência, um experimento hayekiano. O conhecimento, disperso em tantas mentes, tenta se transformar em capital humano pelas ações dos indivíduos. O professor, neste sentido, é um empreendedor pois deve dele partirem os incentivos que serão os melhores possíveis para seu objetivo: formar bons profissionais.
Genericamente, esta é a função de produção de qualquer disciplina em um curso universitário.

Dito isto, a questão mais genérica merece um detalhamento maior: que incentivos deve um professor usar? Os insights de Friedrich Hayek sobre o uso da informação têm muito a nos ensinar. Primeiro, é impossível que alguém diga a um professor o que fazer. Ou melhor, há sempre um especialista em educação em cada aluno, pai de aluno ou mesmo pedagogo que acha que sabe o que é melhor para a sua sala de aula. A pretensão científica, contudo, nem sempre é o que aparenta ser. Um aluno pretende barganhar por uma nota maior ao menor esforço possível, o pedagogo tem que justificar o próprio salário e o pai do aluno, bem, este, pode ter vários interesses e é uma imensa alegria quando estes se traduzem em sincero desejo de que seu filho realmente estude e aprenda.

Diante desta situação, obviamente, a pergunta do título faz todo sentido. Ao mesmo tempo em que o professor se pergunta sobre o que fazer, também o aluno busca orientação externa: o que fazer? Como estudar? O que ler? Perguntas como estas não têm respostas únicas, embora o ensino básico e médio ainda insista que a história só existe sob a visão marxista, que questões de geografia política só têm uma resposta e que o mundo se resolve com o gabarito da prova da turma anterior. Desafios recebem este nome porque, justamente, situam o indivíduo diante do desconhecido.

É interessante pensar no problema a partir do ponto de vista do cotidiano atual. O aluno quer respostas e acha que o professor é como um mecanismo de busca, um google. A pressa de obter respostas prontas supera a paciência de aprender a resolver o caso geral. Qual o futuro disto? Fácil: quem deseja viver no google será um especialista em buscas. Mas se o objetivo é construir o próprio conhecimento, o google é apenas o passo inicial. Em resumo, e ao contrário do que fazem muitos alunos, o tempo de busca no google é apenas um quarto do tempo necessário para se fazer o trabalho. O restante é o bom e velho suor. O professor não é um google. O professor pode ajudar a indicar termos para se buscar no google. Quando muito, pode indicar se há ou não sentido em certas buscas feitas.

Mas o conhecimento do aluno, aquele pelo qual supostamente anseia, só ele pode construir. Aqui também vale uma reflexão. Nem sempre o aluno sabe o que quer exatamente. A elaboração das suas perguntas é um processo doloroso – como o é qualquer processo que exija energia cerebral – mas necessário. Por isto alguns maus alunos se transformam e fazem jus a seus diplomas enquanto outros demoram o dobro do tempo para fazer o mesmo. Não existe almoço grátis e pensar, dizem por aí, dói.

Que incentivos, portanto, deve o professor usar, em um mundo como este? Talvez a sugestão de Hayek ainda seja a mais válida. Não há como controlar os alunos. Crie regras básicas e simples e deixe que cada aluno trabalhe. Premie a excelência e garanta que desvios das regras significarão dor e tristeza (seja na forma de pontos perdidos ou repreensão).

É difícil, para muitos, perceber o significado disto. Por exemplo, quando se pede a um aluno para saltar do mundo maravilhoso dos dados bem-comportados dos livros de Estatística (ou Econometria) para a dura realidade dos dados do Brasil, no qual a inflação e a mudança de moeda foram uma realidade marcante no século XX, os alunos procuram uma bóia comum. Não existe tal bóia. Existem os dados, suas limitações, as limitações dos alunos e a tarefa a ser cumprida. Construir a base de dados, relatar os problemas e aplicar a metodologia correta segundo as regras (e apontar suas limitações) faz parte do aprendizado que deve ser avaliado pelo professor. Dar aos alunos a base de dados pronta, assim, seria privá-los da experiência de lidar com as dificuldades da sociedade em que vive.

Claro, se o professor permitir que o trabalho seja em equipe, novo problema. A equipe pode ser apenas um nome bonito para um amontoado de gente sem coordenação. Pode-se chamar isto de “grupo” em contraste com a “equipe”, aqui definida como seu oposto. O experimento do trabalho em equipe também demanda regras próprias e simples. Basicamente, deve-se evitar que uns explorem o conhecimento alheio sem contribuirem para o processo produtivo do trabalho da equipe.

Não é difícil saber o que fazer. Difícil é perceber o que deve ser feito e mostrar as pessoas que as alternativas, geralmente, são piores para todos. Uma opção é desistir de tudo, claro. Esta opção, contudo, deve ser sempre pensada tendo em vista que se Franklin D. Rossevelt tivesse desistido após Pearl Harbor, o mundo certamente não seria o que temos. Em muitos aspectos, creio, seria pior.

Desta forma, pode-se refazer a pergunta inicial: professor, como descubro o que eu faço? Eis aí o desafio para o qual não há gabarito e nem resposta pronta. Em nenhum livro.

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