Professores, acordem!

Normalmente escrevo esta coluna pensando nos leitores que nada têm a ver com o setor educacional. Faço isso, em primeiro lugar, porque creio que a educação brasileira só vai avançar (e com ela o Brasil) quando houver demanda pública por melhorias. E, segundo, porque nos últimos anos tenho chegado à conclusão de que falar com o professor médio brasileiro, na esperança de trazer algum conhecimento que o leve a melhorar seu desempenho, é mais inútil do que o proverbial pente para careca. Não deve haver, nos 510 milhões de quilômetros quadrados deste nosso planeta solitário, um grupo mais obstinado em ignorar a realidade que o dos professores brasileiros. O discurso é sempre o mesmo: o professor é um herói, um sacerdote abnegado da construção de um mundo melhor, mal pago, desvalorizado, abandonado pela sociedade e pelos governantes, que faz o melhor possível com o pouco que recebe. Hoje faço minha última tentativa de falar aos nossos mestres. E, dado o grau de autoengano em que vivem, eu o farei sem firulas.

Caros professores: vocês se meteram em uma enrascada. Há décadas, as lideranças de vocês vêm construindo um discurso de vitimização. A imagem que vocês vendem não é a de profissionais competentes e comprometidos, mas a de coitadinhos, estropiados e maltratados. E vocês venceram: a população brasileira está do seu lado, comprou essa imagem (nada seduz mais a alma brasileira do que um coitado, afinal). Quando vocês fazem greve — mesmo a mais disparatada e interminável —, os pais de alunos não ficam bravos por pagar impostos a profissionais que deixam seus filhos na mão; pelo contrário, apoiam a causa de vocês. É uma vitória quase inacreditável. Mas prestem atenção: essa é uma vitória de Pirro. Porque nos últimos anos essa imagem de desalento fez com que aumentassem muito os recursos que vão para vocês, sem a exigência de alguma contrapartida da sua parte. Recentemente destinamos os royalties do pré-sal a vocês, e, em breve, quando o Plano Nacional de Educação que transita no Congresso for aprovado, seremos o único país do mundo, exceto Cuba, em que se gastam 10% do PIB em educação (aos filocubanos, saibam que o salário de um professor lá é de aproximadamente 28 dólares por mês. Isso mesmo, 28 dólares. Os 10% cubanos se devem à falta de PIB, não a um volume de investimento significativo).

A educação passou a ser prioridade inadiável na era do conhecimento

Quando um custo é pequeno, ninguém se importa muito com o resultado. Quando as coisas vão bem, ninguém fica muito preocupado em cortar despesas. E, quando a área é de pouca importância, a pressão pelo desempenho é pequena. No passado recente, tudo isso era verdade sobre a educação brasileira. Éramos um país agrícola em um mundo industrial; a qualificação de nossa gente não era um elemento indispensável e o país crescia bem. Mas isso mudou. O tempo das vacas gordas já era, e a educação passou a ser prioridade inadiável na era do conhecimento. Nesse cenário, a chance de que se continue atirando dinheiro no sistema educacional sem haver nenhuma melhora, a longo prazo, é zero.

Vocês foram gananciosos demais. Os 10% do PIB e os royalties do pré-sal serão a danação de vocês. Porque, quando essa enxurrada de dinheiro começar a entrar e nossa educação continuar um desastre, até os pais de alunos de escola pública vão entender o que hoje só os estudiosos da área sabem: que não há relação entre valor investido em educação — entre eles o salário de professor — e o aprendizado dos alunos. Aí esses pais, e a mídia, vão finalmente querer entrar nas escolas para entender como é possível investirmos tanto e colhermos tão pouco. Vão descobrir que a escola brasileira é uma farsa, um depósito de crianças. Verão a quantidade abismal de professores que faltam ao trabalho, que não prescrevem nem corrigem dever de casa, que passam o tempo de aula lendo jornal ou em rede social ou, no melhor dos casos, enchendo o quadro-negro de conteúdo para aluno copiar, como se isso fosse aula. E então vocês serão cobrados. Muito cobrados. Mas, como terão passado décadas apenas pedindo mais, em vez de buscar qualificação, não conseguirão entregar.

Quando isso acontecer, não esperem a ajuda dos atuais defensores de vocês, como políticos de esquerda, dirigentes de ONGs da área e alguns “intelectuais”. Sei que em declarações públicas esse pessoal faz juras de amor a vocês. Mas, quando as luzes se apagam e as câmeras param de filmar, eles dizem cobras e lagartos.

Existem muitas coisas que vocês precisarão fazer, na prática, para melhorar a qualidade do ensino, e sobre elas já discorri em alguns livros e artigos aqui. Antes delas, seria bom começarem a remover as barreiras mentais que geram um discurso ilógico e atravancam o progresso. Primeira: se vocês são vítimas que não têm culpa de nada, também não poderão ser os protagonistas que terão responsabilidade pelo sucesso. Se são objetos do processo quando ele dá errado, não poderão ser sujeitos quando ele começar a dar certo. Se vocês querem ser importantes na vitória, precisam assimilar o seu papel na derrota.

Segunda: vocês não podem menosprezar a ciência e os achados da literatura empírica sempre que, como na questão dos salários, eles forem contrários aos interesses de vocês. Ou vocês acreditam em ciência, ou não acreditam. E, se não acreditam — se o que vale é experiência pessoal ou achismo —, então vocês são absolutamente dispensáveis, e podemos escolher na rua qualquer pessoa dotada de bom-senso para cuidar da nossa educação. Vocês são os guardiães e retransmissores do conhecimento acumulado ao longo da história da humanidade. Menosprezar ou relativizar esse conhecimento é cavar a própria cova.

Terceira: parem de vedar a participação de terceiros no debate educacional. É inconsistente com o que vocês mesmos dizem: que o problema da educação brasileira é de falta de envolvimento da sociedade. Quando a sociedade quer participar, vocês precisam encorajá-la, não dizer que só quem vive a rotina de “cuspe e giz” é que pode opinar. Até porque, se cada área só puder ser discutida por quem a pratica, vocês terão de deixar a determinação de salários e investimentos nas mãos de economistas. Acho que não gostarão do resultado…

Quarta: abandonem essa obsessão por salários. Ela está impedindo que vocês vejam todos os outros problemas — seus e dos outros. O discurso sobre salários é inconsistente. Se o aumento de salário melhorar o desempenho, significa que ou vocês estavam desmotivados (o que não casa com o discurso de abnegados tirando leite de pedra) ou que é preciso atrair pessoas de outro perfil para a profissão (o que equivale a dizer que vocês são inúteis irrecuperáveis).

O respeito da sociedade não virá quando vocês tiverem um contracheque mais gordo. Virá se vocês começarem a notar suas próprias carências e lutarem para saná-las, dando ao país o que esperamos de vocês: educação de qualidade para nossos filhos.

Fonte: Veja, 11/05/2014.

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17 comments

  1. Mateus Beluca Escobedo

    Caro Gustavo, seus argumentos são superficiais, de senso comum, sem profundidade teórica. Que mesmo para um artigo de opinião, apresentam pouca criticidade.
    Eu, como professor da Escola Pública, que não leio jornal em sala de aula, não entro em redes sociais, não encho o quadro negro com cópias, sinto-me no direito, dever e obrigação de refazer seu último parágrafo:

    O respeito dos professores não virá quando vocês tiverem um desempenho educacional melhor. Virá se vocês começarem a notar suas próprias carências e lutarem para saná-las, dando ao país o que esperamos de vocês: filhos de qualidade para nossa educação.

  2. Boa noite,
    Achei interessante suas colocações no texto. O problema do professor realmente não é o salário. É ter de trabalhar em excesso para conquistar um mínimo requerido para sobrevivência em nossa sociedade atual. O salário do professor é comparável a de pessoas sem ensino superior. Confesso que a educação brasileira é falha, sou parte disso, sou professor. Mas, acima de tudo, temos de ver as políticas públicas voltadas a educação no nosso país. É um depósito de aluno em salas superlotadas, desinteressados, pois, estão na escola apenas pelo bolsa família e sei lá que bolsa ofertada pelo governo. Atrapalham quem quer aprender. A escola deveria ser seletiva. O professor é transmissor de conhecimento científico, não babá como está ocorrendo hoje. O salário é a mera ponta do iceberg de uma série de problemas. Lembre-se: sem um professor, o senhor não estaria publicando tal matéria…

  3. Edineide de Sousa Reis

    Antes de tirar uma conclusão temos que saber o que realmente se passar nos bastidores. Concordo com o comentário acima que o salário de professor é em muitas situações o mesmo de quem não tem ensino superior, e outra coisa não temos Universidades de boa qualidade para todos e a Maioria dos professores saem com uma formação de baixa qualidade, e segundo Celso Vasconcelos diz que um médico estuda 6 anos para se formar e mais 3 a 4 anos para se especializar e uma licenciatura dura em média “3 ANOS”,e para ser médico é preciso passar primeiramente por um professor de EDUCAÇÁO BÁSICA.

  4. O que os estudiosos sabem e não comentam é que o estudo foi realizado com docentes que recebiam em média US$ 5,000.00 por mês, o suficiente para uma vida digna e confortável nos EUA. Para eles um aumento de 10% ou 20% não foi motivação suficiente para mais esforço. Aqui a realidade é outra. O contra exemplo de tudo o que foi dito pelo Sr. Gustavo é a Universidade publica em geral e umas poucas privadas que pagam um salario minimamente decente e apresentam retorno consistente – as públicas, que pagam melhores salários, são muito melhores que as privadas, que pagam salários menores.
    A solução para a educação é basicamente salário e qualificação. Hoje só busca a carreira docente quem não consegue se estabelecer no mercado em outra profissão. Os alunos que entram para as licenciaturas são aqueles que não conseguiram entrar nas carreiras mais concorridas… os menos capazes – que serão os futuros professores.

  5. daise

    Sou professora a 22 anos,durante este tempo muitas coisas mudaram na educação,com todo respeito,o mesmo que você não teve ao tratar de uma profissão tão seria, acho que não deveria generalizar ,conheço excelentes professores que tem amor a profissão e fazem seu trabalho independente de salario ou condições socais. talvez nunca tenha entrado numa sala de aula para ver a nossa verdadeira realidade… Estou indignado com este artigo…

  6. WELLYS DA SILVA MATTOS

    É fácil falar quando está de fora. Troca comigo de salário, depois passa a comentar algo em que você não vive. Como professor graduado e pós-graduado, não ganho dois salários mínimos. Você vem dizer que dinheiro não conta. Não conta para você, que no mínimo não sabe o que é precisar das instituições brasileiras.

  7. CLAUDIA

    Olá!
    Li atentamente seu artigo, e estou refletindo sobre suas palavras, pois sou profissional da educação do ensino público municipal de São Paulo.
    Convido-o a participar desta reflexão sobre o tema Educação ,sugerindo-lhe a leitura do artigo :http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,cortella-a-escola-passou-a-ser-vista-como-um-espaco-de-salvacao,1168058,0.htm – Cortella: ‘A escola passou a ser vista como um espaço de salvação’

    Estou a disposição para uma boa conversa posteriormente. Um abraço. Até.

  8. André Fonseca

    Você estudou nos EUA, é membro da maior afiliada da rede globo (grupo rbs) e, pra piorar, escreve na veja. Não podia mesmo saber nada sobre educação no Brasil. Gustavo, acorda!

  9. Ana Jacinto Pinto Aquino Rego

    É infelizmente sua experiência escolar foi traumática, você só teve professores e não educadores….

  10. Anderson

    Ué, nunca vi tanta besteira escrita num só lugar, o que deu? acordou de mal humor pra sair escrevendo tudo isso. Meu amigo, o que vc diz está totalmente destoado da nossa realidade.

  11. Ana

    Gustavo, você não deve ter noção nenhuma do que é ser professor, do que é ser professor, pai, mãe, amigo, psicólogo…não tem noção do nosso papel na construção da vida do aluno, eu to falando só de conhecimento sistemático, que muitos professores têm excelência em passá-lo, estou falando de ser humano, de contato, de motivação. Sabe aquela última esperança na vida de alguém que não tem estrutura alguma, este é o meu papel enquanto professora, salário? Claro, você transmite conhecimento de graça? Mas quem fica em sala de aula, quem é professor mesmo, trabalha porque ama, trabalha com as mínimas condições…só quem está, é que sabe…o resto é tudo demagogia…

  12. Edilaine Lopes

    Os professores têm obsessão por salários? E os 15.000,00 que você cobrou do poder público do Mato Grosso para dar uma palestra? É o quê, então?

  13. JORGE ARROTHEIA JUNIOR

    CARO, “gustavo”, sobre essa matéria sua em uma coisa você tem razão, realmente tem muito professor ruim, por exemplo, os que ensinaram VOCÊ, pois sua analise sobre a REALIDADE dos professores é totalmente DESCABIDA. Acredito que você DEVA voltar a estudar num escola pública por alguns meses para saber como as coisas REAIS acontecem por lá. Repito, se professores estiverem ensinando da maneira como você fez essa analise, realmente o ensino tem que mudar e MUITOOOOOOO!!!!

  14. JORGE ARROTHEIA JUNIOR

    Vou falar novamente, quanto ao seu artigo sobre os professores, não é a toa que você escreve na veja e por isso que NUNCA mais quero assinar essa revista.

  15. Marco Adriano Dias

    Caro jornalista.
    Vou considerar sua posição perante a situação da educação no Brasil um tanto pessoal, como você mesmo assume, e, por isso, carregada de experiências pré concebidas, grande parte delas provavelmente construídas na sua fase escolar, independente de você ter sido ou não aluno de escola pública. Poderia eu, aqui, dedicar parte do meu ócio criativo a refutar todas as afirmações infundadas e superficiais que você coloca, mas, como minha intuição diz que você escreveu essas palavras, providas de comicidade, como um desabafo de um cidadão que não entende muito bem como as coisas funcionam, vou ser bastante simplista no meu comentário: você deveria se aliar a alguma coligação política para que, caso ela se eleja, você seja nomeado Secretário de Educação, ou, quiçá, Ministro da Educação. Com sua análise percebe-se claramente que você preenche todos os requisitos para esses cargos. Atenciosamente, Professor MARCO ADRIANO DIAS

  16. luciane brito

    Boa noite sr Gustavo, por que você não vem passar uns dois mês na luta diária que temos? Dar aula para uma sala de 36 alunos, detalhe, venha no verão, para uma sala como as minhas, sem ventilador, ou com um único na lateral da sala que não gira… O dar aula não nos cansa, o que nos cansa é a falta de educação dos alunos, a falta de material quando precisamos… Agora dizer que o respeito não vira com um contracheque gordo? Fazemos milagres em sala de aula… Venha trabalhar aqui e ganhar ,na prefeitura que trabalho, R$ 10,53 por aula… e sobreviver com isso

  17. Andrea

    Lamentável que o sr. enquanto formador de opiniões se mostre tão radical e embrutecido nas suas colocações, generalizando e chegando ao extremo de condicionar nosso desempenho aos nossos salários.
    Saiba que muitos de nós estamos na profissão por escolha e não por falta de opção. E que o respeito deveria vir justamente desses como o sr, ditos intelectuais, agora o que esperar de um cidadão que prima pela excelência na educação, mas se quer se questiona como muitos de nós professores (e não COITADOS como se referiu em seu texto) juntamos nossas angustias e decepções para novamente e novamente, dia após dia, travarmos uma batalha contra a evasão e total desmotivação dos nossos jovens do ensino médio, frente a tanta injustiça e corrupção? E o sr. que longe de ser um coitado, afinal pelo que li aqui, o sr. não trabalha por caridade ou hobby, gostaria de inverter seu papel com qualquer um de nós professores? Estaria mesmo disposto a viver nossas realidades?