Um “bom velhinho” chamado [Karl] Marx, maior crítico do capitalismo, até hoje, ainda inspira românticos com a tal da teoria da mais-valia, ou da exploração, em que o empresário “malvado” repassa para o empregador apenas parte do que fatura. O mais engraçado é que os defensores do Mais Médicos — programa que vai trazer 4 mil médicos cubanos fazendo o mesmo com os estrangeiros— são justamente os esquerdistas, adeptos das ideias do filósofo.

Não confunda, leitor: quando a tal da mais-valia é feita pelos empresários, isso é exploração. Mas se for praticada pelo companheiro Fidel, é apenas amor ao próximo. Se você não entendeu a diferença, fique tranquilo, acho que nem eles a entendem. A incoerência dos “companheiros” é tamanha que até Marx defendia que o Estado assumisse a mais-valia apenas de início, para, depois, extirpá-la e, convenhamos, Fidel está no poder desde 1959, e acho que teve tempo para tal, caso fosse sua intenção.

Muita gente ainda cai na mesma ladainha maniqueísta da esquerda, que supervaloriza as intenções. Posso afirmar, seguramente, que o altruísmo também é causador de grandes problemas. Explico melhor. Ajudar e fazer o bem ao próximo são valores essenciais e o mundo seria muito melhor se todos fizessem isso. Mas as boas intenções não nos dão o direito de passar por cima da escolha das pessoas, nem de obrigá-las a nada.

Motivadas por boas intenções, algumas pessoas acham que personificaram a bondade e que, portanto, estão acima do bem e do mal. Vale lembrar que foi isso que aconteceu com [Adolf] Hitler, os militares brasileiros (do regime militar daqui), [Josef] Stálin e outros genocidas. Eles mataram milhões de pessoas, afirmando defender os cidadãos de seus países e, se não acreditavam que estavam fazendo o bem, diziam isto para enganar e obter o apoio daqueles que queriam que o melhor para seus países fosse feito.

O caso do Mais Médicos é exatamente o mesmo: ignora-se o “como” vai ser feito, porque o programa tem objetivos nobres. Cheio de ilegalidades e falta de ética, os governos brasileiro e cubano vão submeter médicos estrangeiros a um trabalho quase que escravo, não só pela discrepante diferença de remuneração para se prestar o mesmo serviço no mesmo território, mas também pela falta de liberdade de escolha de se rescindir os contratos por parte dos estrangeiros e de voltar para seu país de origem, caso queiram.

Enquanto os brasileiros receberão R$ 10 mil reais por mês, estima-se que os cubanos recebam entre 25% a 40% desse valor. O problema é que o governo brasileiro pagará R$ 10 mil por médico cubano também, ou seja, se Fidel resolver, ao bel prazer, repassar R$ 2,5 mil dos R$ 10 mil que vai receber, os outros R$ 7,5 vão para financiar a ditadura da ilha. Serão R$ 30 milhões só nesta primeira leva.

É falso equiparar os cubanos a trabalhadores de uma companhia internacional — ainda que exista diferença de salários para a prestação de um mesmo serviço — pois as pessoas de uma companhia, recebem uma proposta, tem liberdade de escolha se querem ir ou desistir da empreitada, até por motivos pessoais. Como todo regime ditatorial, quem decide tudo é o “semideus” que ocupa a cadeira de estadista. Afinal ele sabe o que é melhor para você até mais que você mesmo, não é verdade?

Está claro que precisamos dar mais condições de atendimento médico, principalmente às pessoas de baixa renda, mas esta é uma responsabilidade de toda a sociedade, não só da classe médica. Não estou dizendo que você, engenheiro, advogado etc, deve comprar jalecos e ir para os rincões do país prestar primeiros-socorros, mas sim, que, o que causou o problema de má distribuição — porque não há falta — de profissionais da saúde, foi justamente a negligência do poder público em dar condições básicas para o trabalho dos médicos e quem ignora isto, talvez não tenha ainda tido a oportunidade de conhecer as infraestruturas e as filas de uma unidade do Sistema Único de Saúde (SUS). A responsabilidade é da sociedade porque quem colocou e não fiscalizou estes senhores, responsáveis pela saúde, foi a própria sociedade, a mesma que está achando esse programa uma maravilha.

Se os cidadãos de outras profissões colocarem-se no lugar dos médicos brasileiros, que não são anjos por trabalharem na saúde, mas profissionais como quaisquer outros, irão se indagar: quanto custa para formar-se médico, hoje? Quanto se tem de estudar para isso? Será que são valorizados? Não estamos falando do corporativismo dos conselhos. Isso existe e conselhos de todas as profissões têm essa tendência, mas será que vale a pena ser médico no Brasil? Por ajudar as pessoas, com certeza vale. Mas como sustentar isso? Será que os quase 40% de impostos que pagamos sob o Produto Interno Bruto (PIB) não são suficientes para investir em infraestrutura hospitalar? Se não são, para que então precisamos de 39 ministérios?

Os “altruístas” defensores do programa podiam nos dizer: agora que “teremos os médicos”, eles vão usar o que para trabalhar? Que hospitais? Que macas e insumos básicos? Existem locais que falta até saneamento básico. Será que toda a dinheirama que vai para o nosso “amigo” Fidel, não seria melhor investida em infraestrutura hospitalar, já que o problema não é a falta e sim a má distribuição de profissionais?

Enfim, algo já está claro, enquanto continuarmos acreditando nos 13 Papais Noéis que têm aquela estrela amarela estampada no uniforme vermelho, é melhor continuarmos comendo feno para que as nossas orelhas cresçam saudáveis.

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2 comments

  1. Francisco de Assis Torres de Oliveira

    Muitos médicos braileiros não querem ir para determinados locais.Compreensível.Acredito que os representantes de tais categorias prestariam um grande serviço ao país se fiscalizassem com mais rigor seus “filiados” e talvez não precisásse-mos repetir como o povo mais “humilde”que nos ensinaram a crueldade de que “erro médico a terra cobre”,assim, talvez angariasem mais prestígio e apoio da populaçao. O que parece é que são meros defensores de uma “reserva de mercado”tão nocivo a um desenvolvimento econômico e social.

  2. Luciano

    Ótimo!