Progressistas mascarados, saiam do armário

Guilherme Fiuza

Tem um pedaço do Brasil se dizendo impressionado com o apoio enfático de Lula ao massacre venezuelano. Só pode ser amnésia. Lula deu a mão ao ditador iraniano Ahmadinejad no momento em que ele trucidava civis nas ruas em 2009. O então presidente brasileiro disse que aqueles conflitos eram normais, como “briga de flamenguistas e vascaínos”. Como se sabe, o uso da violência contra o capitalismo malvado está na moda, e a esquerda humanitária caiu nos braços dos black blocs. Nada mais natural do que Lula dar uma força na TV ao ditador democrata da Venezuela e a sua diplomacia de faroeste.

O pronunciamento de Lula em defesa do massacre de Nicolás Maduro, veiculado para o povo venezuelano, foi cheio de sentimento. Não poderia ser de outro jeito, diante do quadro de mortos e feridos nos protestos contra a devastação do país pelo chavismo. Os brasileiros já nem se lembravam como era ver seu ex-presidente emocionado, dando tudo de si, piscando os olhinhos e alternando a cara de mau e a voz cavernosa com sorrisinhos doces. Lula já dissera que a Venezuela chavista era um modelo de democracia. Agora, é para lá que o Brasil quer ir – sem a ajuda de Lula.

As notas oficiais de Dilma em apoio a Maduro, enquanto ele bota para quebrar nas ruas, estão em consonância com o que se passa nas ruas brasileiras. Por aqui, há uma boa turma de esclarecidos e bem alimentados achando, também, que vale “de um tudo” para bombardear o capitalismo e a imprensa burguesa – essas elites que impedem o continente de chegar a seu final feliz chavista e alegremente miserável. Essa turma culta e progressista anda dizendo que o assassinato do cinegrafista Santiago Andrade é explorado pelo sistema. Com tamanha sensibilidade, está inaugurado o humanismo black bloc (conteúdo adulto).

Se Freixo deplora a violência, como pode manter um assessor que assume proteger vândalos?

O debate sobre os maus modos das forças do bem foi parar num gabinete. O deputado estadual Marcelo Freixo, do PSOL, famoso por sua corajosa luta contra as milícias no Rio de Janeiro, foi citado nas investigações sobre a morte de Santiago. Em depoimentos truncados, de difícil comprovação, ficou sugerido que os assassinos de Santiago tinham algum tipo de ligação com ele. A imprensa publicou, e os progressistas gritaram em defesa de Freixo. Ele próprio declarou que deplora qualquer forma de violência. Como sempre acontece no Brasil, o debate foi parar no botequim e ignorou o óbvio.

Freixo tem, entre seus principais assessores, um defensor dos black blocs. Isso não é uma suspeita, um indício ou uma acusação. É fato. Nos episódios de detenção dos mascarados que quebram tudo, o assessor de Freixo atuou sistematicamente dando apoio jurídico ao bando incendiário. Se Freixo deplora qualquer forma de violência, como pode manter em sua assessoria direta uma pessoa que assumidamente protege vândalos?

Numa longa greve que parou o centro do Rio, em atos inflamados pela violência de mascarados, o sindicato de professores municipais declarou que a adesão dos black blocs era bem-vinda. O tal sindicato é alinhado com o PSOL, de Freixo, que deplora a violência. O movimento de ocupação da Câmara de Vereadores do Rio, marcado por vários atos de depredação, envolvendo pelo menos uma militante que depois foi ajudar os assassinos de Santiago, também contou, no mínimo, com a simpatia do PSOL e do deputado pacifista. Seria uma cachoeira de coincidências?

Não importa. Se Freixo e seus simpatizantes progressistas têm horror à violência, no mínimo seu assessor e dublê de protetor jurídico de mascarados teria de ter sido demitido há muito tempo. Mas eis a questão: essa turma bondosa acha mesmo que a boçalidade black bloc não vale, ou acha que, em certa medida, ela “faz parte”, conforme alguns já disseram?

Eles precisam escolher. Se deploram a violência, têm de condenar publicamente os boçais mascarados, cortando qualquer vínculo concreto ou simbólico com os fascistoides. Se os veem como um braço revolucionário contra o sistema, assumam que a morte de Santiago “faz parte”. E pulem na trincheira do vale-tudo contra a imprensa. É uma postura mais honesta – e certamente um caminho mais curto rumo à Venezuela brasileira.

Fonte: Época 13/3/2014

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