Quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Prostituição democrática

Não existe democracia sem a oposição. E fazer oposição é, antes e acima de tudo, contrariar interesses dominantes. Para tanto, é absolutamente necessário ampla liberdade de ação política. Quando a minoria democrática fica de mãos atadas, é sinal de que passou a ser um mero fantoche dos pretensos donos do poder. Como bem apontou o saudoso Geraldo Ataliba, “a república faz da oposição instrumento institucional de governo”. Logo, só há justa síntese política entre teses e antíteses democráticas. Portanto, é hora de a oposição dizer a que veio e passar a falar verdades que o povo precisa escutar.

Enquanto isso, no entreato dos acontecimentos, o improvável vai ficando cada vez mais factível no Brasil. O grave é que, quando tudo passa a ser possível, a lei está em vias de virar um nada. Ora, a vida ensina que não se brinca com a arrogância arbitrária; de pé em pé, ela vem e vai entrando pelas frestas das instituições públicas, aliciando, aqui e acolá, os adeptos da usurpação e os arautos da imoralidade. Para não serem desmascarados, posam de vestais e defendem hipocritamente causas sociais de base. Uma vez no poder, montam uma impressionante engrenagem corrupta, usando bilionários negócios escusos para ocultar e lavar dinheiro em paraísos fiscais. Objetivamente, o que estava em curso era um agressivo processo de autoritarismo eleitoral: se nada fosse feito, teríamos eleições de apenas um único vencedor. Acontece que o mal sempre deixa rastro. Foi, então, que surgiu no Paraná um juiz independente, que vem cumprindo seu dever com coragem, destemor e exação. O doutor Sérgio Fernando Moro vem demonstrando que a firme, justa e imparcial aplicação da lei é o melhor caminho para a evolução democrática e civilizatória de uma nação. Até mesmo porque a criminalidade política significa a mais aviltante forma de prostituição da democracia.

A política precisa urgentemente dos seus bons cidadãos. Do bom cidadão, virá o bom político. E do bom político, chegaremos a melhores partidos

Chega. A verdade precisa ser dita: a democracia no Brasil está em risco. Não se trata de golpismo oposicionista, mas de incontrolável prepotência situacionista. Após a mentira descarada na campanha eleitoral, pensam que podem continuar falseando a democracia com o uso e abuso da caneta do poder. Parece que até medidas provisórias andaram sendo vendidas. É um escárnio! Falam em princípios democráticos, mas agem como assaltantes da ética pública. Dizem que se preocupam com os pobres, mas do desgoverno acéfalo chegam à inflação palpitante. Gostam de discursos histriônicos, mas se calam para a corrupção endêmica em prol de uma causa bandida e profana. O cinismo é absoluto, e a mentira, desavergonhada. Sem cortinas, as ditaduras do século 21 não serão erguidas com golpes de força, mas com sub-reptícias manipulações institucionais. O Exército e a polícia não serão chamados; ao contrário, serão progressivamente humilhados em sua dignidade humana, moral e material. Com a insegurança generalizada, os cidadãos ficarão enclausurados em seus lares, abandonando as ruas e o espaço público. Isolando o povo, o poder estará livre, leve e faceiro para assaltar ainda mais o patrimônio nacional.

O vazio político brasileiro é sintomático e revelador, bem expondo que a vida pública nacional está entregue a pessoas despreparadas para o exercício responsável de suas funções. A política precisa urgentemente dos seus bons cidadãos. Do bom cidadão, virá o bom político. E do bom político, chegaremos a melhores partidos. Ser democrata é muito mais do que votar de tempos em tempos; é, fundamentalmente, participar em tempo integral. Em sua substância intrínseca, a democracia não pode ser um regime político de ocasião. Aliás, não é a ocasião que faz o ladrão?

Fonte: O Estado de Minas, 8/11/2015

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