Psicologia econômica & comportamento

A potencial crise que insiste em rondar os mercados globais leva ao repensar dos fundamentos da ciência econômica. Isso se percebe de maneira especial na chamada “economia comportamental” (behavioral economics).

Um casamento entre a economia e a psicologia. Daí o sucesso de livros como “Freakonomics”, de Stephen Dubner e Steven Levitt, ou “Presumivelmente Irracional”, de Dan Ariely. Ambos tratam das forças ocultas que moldam nossas decisões econômicas.

Os comportamentalistas sustentam que os postulados tradicionais, como a hipótese microeconômica de que o consumidor sempre busca maximizar seus interesses a partir de uma perspectiva racional, são verdadeiras, porém não únicas. Para eles, há espaço para forças motivacionais como altruísmo, indulgência, filantropia, e mesmo “autodestruição”.

Embora se conheçam fragmentos de uma escola comportamentalista desde os anos 60, com o trabalho de George Akerlof e do aclamado Joseph Stiglitz, ganhador do Prêmio Nobel, apenas agora o movimento ganhou real força nas universidades americanas: cerca de 20 % das teses de pós-graduação na Ivy League focalizam fenômenos psicológicos. Suas estrelas são David Laibson (Harvard) e Sendhil Mullainathan (MIT).

A renovada ênfase na psicologia ainda não abalou, contudo, o império da matemática como “método dos métodos” para a validação científica. Há muito deixou-se de tratar a matéria como “economia política”, assim conhecida à época de Adam Smith. Tornou-se uma “bruxaria de números”, na crítica dos saudosistas da fase em que palavras eram mais importantes que equações.

Qual o grau de sofisticação de raciocínio que aplicamos a nosso comportamento econômico? Que escolhemos enxergar ou não perceber em nossa análise? Ao contrário do que prega a economia “mainstream”, os comportamentalistas argumentam em favor da “imperfeição” de avaliações racionais.

Não há no cérebro um sistema de mercado perfeito, em que a alocação de recursos e as decisões são puramente racionais. Vivemos uma realidade “representacional”, em que o fator tempo é colocado de ponta-cabeça. Ao invés do futuro ser construído a partir do presente é o presente algo intrinsicamente representativo do futuro.

Quando essa noção é aplicada aos ciclos econômicos, temos um curioso fenômeno. Durante períodos de expansão, quando gastos pessoais exagerados se combinam com pouca poupança, as pessoas tendem a supor que os bons tempos continuarão e que o melhor ainda está por vir.

Como não há recessão à vista, pode-se prolongar a extravagância. Uma clássica supervalorização de nossos sentidos, ou seja, “aquilo que não vejo não existe”. Este é um bom parâmetro para nos perguntar se há uma bolha na economia brasileira.

O complicado dessa história é que às vezes também tenderíamos a estender as agruras de uma recessão com base na projeção de que o período de vacas magras vai continuar. É bem o caso da incerteza que vivemos desde a eclosão da grande recessão de setembro de 2008 e cujos fantasmas voltaram a assombrar nas últimas semanas. A imperfeição de nossa psicologia econômica nos arrisca a substituir a “exuberância irracional” pela “melancolia irracional”.

Fonte: Brasil Econômico, 21/06/2011

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