O forte crescimento do consumo num mundo abundante em divisas e onde os mercados de industrializados são dominados fora do Brasil leva ao forte crescimento do setor serviços

A volta de um giro de apenas duas semanas em países menos desenvolvidos da Europa mostrou na carne como nossa infraestrutura é precária e inferior à do resto do mundo. Além disso, a leitura da mídia atrasada revela como a percepção sobre o desempenho econômico brasileiro vem se deteriorando nos últimos tempos. Essas coisas estão fortemente interligadas.

As condições caóticas que os brasileiros estão enfrentando na área de transportes mostram que os governos foram longe demais no abandono aos assuntos da área. Só se tem pensado em aumentar gasto corrente e, com exceção da fase 1995-2002, a postura das autoridades é claramente hostil ao investimento privado. Isso é muito curioso, pois se dá exatamente na hora em que os investidores mais preparados deveriam ser cortejados para suprir as deficiências da gestão pública com investimentos de alta qualidade.

Na economia, a queda dos investimentos e do crescimento do PIB mostram que o modelo exacerbado pró-consumo, que vem sendo idolatrado nos últimos tempos, já não tem mais vez. Ele se alimenta primeiro do gasto público corrente, cujo forte crescimento pressiona a carga de impostos para cima, sufocando o setor privado, e deixa o investimento em transportes de fora. Não é de hoje que o gasto público corrente cresce tanto. Mas só foi possível levá-lo agora aos píncaros por conta das reformas e ajustes que vieram com o Plano Real. Só que estamos de novo às vésperas de perder o controle sobre a dívida pública.

O modelo se alimenta também da forte expansão do crédito, que era muito baixo em 2002 e cujo peso no PIB já dobrou! Qualquer um percebe que essa parte da rota já se estreitou. Não há como um país suportar um crescimento tão forte do crédito para o resto da vida. Dentro de um modelo pró-consumo, uma hora falta produto ou serviço para entregar à demanda explosiva, e aí vem a inflação.

O modelo exacerbado pró-consumo, que vem sendo idolatrado nos últimos tempos, já não tem mais vez

A terceira peça-chave do modelo pró-consumo é o forte crescimento da massa salarial que tem resultado de todo o processo recente, e que, no fundo, é a menina dos olhos do marketing governamental, pelo que implica em termos de ganhos de popularidade. Mas não há lanche grátis. Uma hora isso também bate na inflação.

O forte crescimento do consumo num mundo abundante em divisas e onde os mercados de industrializados são dominados fora do Brasil leva ao forte crescimento do setor serviços, incluindo os respectivos salários e emprego, pois não há como importar serviços em geral e é fácil importar os primeiros.

O aumento de salários resvala para os demais setores, onde a indústria tende a crescer menos por não poder pagá-los, mas felizmente a agricultura desempenha um papel crucial. Na indústria, são as importações que desempenham papel estratégico, para tristeza de seus defensores. Já na agricultura, como, ao contrário e talvez por consequência, os preços sobem lá fora, agradeçamos a Deus nossa forte vantagem comparativa na dotação de recursos (temos, inclusive, a maior área agricultável ainda não ocupada no mundo) e por termos sido capazes de desenvolver ou absorver tecnologias que nos tornaram campeões. Assim, a despeito dos altos custos da infraestrutura precária, temos crescido fortemente a produção agrícola e gerado empregos e as divisas adicionais que dão vida bem mais longa ao modelo pró-consumo.

O aumento do preço de serviços em relação aos da indústria equivale a uma apreciação real da taxa de câmbio, que passa a ser a sua tendência natural. E, num mundo abundante em capitais baratos, essa tendência só se acentua.

A agricultura aumenta a vida útil do modelo, mas, resumidamente, o seu esgotamento se mostra: 1 — pelo descalabro das contas públicas; 2 — pelos altos índices de inadimplência; 3 — pela tendência à apreciação cambial real, que sufoca particularmente a indústria; 4 — pelo encolhimento relativo desta, cuja força política é desproporcional à sua participação relativa no PIB; 5 — pela tendência à pressão salarial, agravada pelos baixos índices de desemprego atuais; 6 — pela alta inflação dos serviços, em que pese a ajuda, na maior parte do tempo, da apreciação cambial; 7 — pelo aparente término da fase de preços favoráveis das commodities de exportação.

Assim, a ênfase da política governamental tem de ser redirecionada do consumo para o investimento, e a infraestrutura, sob liderança privada, tem, obviamente, de ser o carro-chefe do novo processo. Primeiro, pelo caos existente, que não tem como ser resolvido sem maiores investimentos locais, que surgiriam naturalmente se o governo agisse de outra forma. Segundo, pelos ganhos de produtividade que são inerentes à expansão dos investimentos nesse segmento. Só que não adianta apenas anunciar planos de expansão. É preciso sair do discurso à ação, despindo a camisa ideológica antimercado e pró-eleição que tem prevalecido, e que desde 2007 tem produzido empreendimentos de baixa qualidade ou nenhum. Como é difícil cortar gasto corrente e há competência, disposição e recursos abundantes na área privada, por que não jogar todas as fichas nessa aposta?

Fonte: “O Globo”, 10/06/2013

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