Merval Pereira

Aécio Neves aprendeu com o avô Tancredo que não existe nada que agregue mais na política do que a expectativa de poder, mais até que o poder presente, que é finito, tem prazo de validade. Por isso mesmo, deveria observar com cuidado o processo de conversão do sindicalista Paulinho da Força, que organizou o partido Solidariedade para fazer oposição ao governo federal e, à primeira abordagem, já admite aderir à base governista em troca da manutenção de alguns cargos de seus novos filiados.

Potencial candidato à Presidência da República pelo PSDB em 2014, o senador Aécio havia investido no apoio ao Solidariedade, apesar de criticar a facilidade de formação de partidos de aluguel no país. Também ele esperava contar com os dois minutos e tanto que o novo partido terá na propaganda oficial e vê agora ir por água abaixo sua estratégia.

Tem razão Aécio quando diz que essa cooptação em troca de cargos depõe contra a democracia, não ajuda que as pessoas se identifiquem e se aproximem da política, porque não veem nenhuma vinculação delas com os partidos que deveriam representá-las .

Mas, na vida real – e foi com base nela que contava o apoio do Solidariedade -, o que significa essa guinada de posição do sindicalista Paulinho da Força é que a presidente Dilma ainda mantém a expectativa de poder que atrai apoiadores de todos os lados.

No Brasil há poucos políticos que mantêm posições coerentes ao longo dos governos, mesmo que fiquem no ostracismo durante muitos anos. O PT era um desses partidos quando estava na oposição e, quando assumia posições claramente antimajoritárias, como ficar contra o Plano Real ou contra a Constituição de 1988, estava preparando seu futuro, que chegou depois de 14 anos de oposição e três derrotas de Lula para a Presidência da República (uma para Collor e duas, no primeiro turno, para FH).

Para se achegarem ao governo do turno, políticos fazem o diabo, e criar novos partidos virou a mágica da hora para permitir a revisão de atitudes. O PSD de Gilberto Kassab nasceu do temor de ficar na oposição, no DEM, e amargar esse exílio político do poder.

Agora mesmo o PROS já formou a sétima bancada da Câmara com políticos vindos de vários partidos, alguns da oposição e outros do PSB que pretendem permanecer no regaço do governo.

O fato é que, com a provável ausência de Marina na corrida presidencial e a desistência de José Serra de sair do PSDB para disputar a eleição por outra sigla, o cenário é cada vez mais favorável à reeleição de Dilma.

Paradoxalmente, a desistência de Serra é prejudicial à oposição de modo geral, como salientou o deputado Roberto Freire, que o queria como candidato do seu PPS, mas é boa para a unidade do PSDB. O ex-governador já não tem condições de atrapalhar a candidatura de Aécio dentro do PSDB, mas a atrapalharia com certeza se fosse candidato por outra legenda. Seria quase impossível, por exemplo, Aécio vencer em São Paulo com Serra na disputa. Agora, sem um paulista na corrida presidencial pela primeira vez desde a redemocratização, o que falará mais alto será a máquina partidária, que estará mobilizada para eleger o governador Geraldo Alckmin em dobradinha com o candidato da sigla ao Planalto.

Até mesmo porque a máquina do PT também está fortalecida em São Paulo com a eleição do prefeito Fernando Haddad.

Também na oposição o que mais se persegue é a tal da expectativa de poder, que já foi maior quando o cenário previa vários candidatos de oposição, e a possibilidade de ir para o segundo turno parecia certa. Com a provável saída de Marina – se ela realmente não conseguir a aprovação do TSE e se recusar a ir para outra legenda -, não se sabe para onde vão os votos que seriam dados a ela. A perspectiva de que boa parte deles, ligados ao eleitorado de esquerda descontente com o PT, volte para a candidata do governo, como aconteceu em 2010, pode não se repetir.

Pelo menos por enquanto candidato à Presidência da República, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, teria aí uma chance de crescer nas pesquisas se conseguisse passar para esse eleitorado que é uma oposição à esquerda, como definiu sua candidatura o vice-presidente do PSB, Roberto Amaral.

O maior enigma é saber para onde iriam os votos evangélicos, que foram importantes na votação de Marina em 2010. Mas muita água ainda vai rolar até que se defina realmente o quadro, lá pelo começo de 2014.

Fonte: O Globo, 03/10/2013

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