A estratégia do atraso

Desta vez, vai. Com o companheiro Chávez no Mercosul e o comércio regional comandado pelo ministro argentino Guillermo Moreno, o Brasil e seus vizinhos vão desemperrar o comércio exterior – se o governo uruguaio, é claro, desistir de contestar a lambança realizada em Mendoza para a admissão da Venezuela. Por enquanto, há alguns probleminhas, mas nenhum com suficiente importância para impressionar a presidente Dilma Rousseff e seus estrategistas. De janeiro a junho as exportações brasileiras para o Mercosul, US$ 11,1 bilhões, foram 14,7% menores que as de um ano antes. Esse resultado é explicável principalmente pela diminuição de 16% nas vendas para a Argentina, a segunda maior economia do bloco e a principal defensora de barreiras comerciais entre sócios de uma união aduaneira. O ministro Moreno aperfeiçoou essa política, impondo mais restrições burocráticas à importação e obrigando os empresários a exportar um dólar para cada dólar importado.

As demais parcerias estratégicas definidas por Brasília continuam funcionando magnificamente e restaurando, em alguns casos, algumas venerandas práticas de outras eras. Os embarques para a China renderam US$ 21,1 bilhões e ficaram 4,7% acima dos registrados no primeiro semestre do ano passado, mas a relação entre a economia chinesa e a brasileira continuou moldada segundo o velho padrão colonial: troca de matérias-primas por manufaturados. Ninguém deve acusar o governo petista de bancar o moderninho e menosprezar o passado.

Segundo as últimas informações disponíveis no site do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, de janeiro a maio o Brasil exportou para a China manufaturados no valor de US$ 892,6 milhões, 5,2% das vendas para aquele mercado. Somando-se os semimanufaturados, chega-se a US$ 2,3 bilhões de produtos industriais, 13,1% do total. O mesmo padrão é observado no comércio com os três parceiros do grupo Bric – Rússia, Índia e China. Os manufaturados vendidos pelo Brasil somaram US$ 1,1 bilhão, 5,5% dos US$ 20,6 bilhões exportados. O total dos industrializados chegou a US$ 3,3 bilhões, 16% do valor faturado pelo Brasil.

A relação entre a economia chinesa e a brasileira continuou moldada segundo o velho padrão colonial: troca de matérias-primas por manufaturados

Se a presidente Dilma Rousseff examinasse rapidamente outras parcerias comerciais do País, ficaria provavelmente surpresa com um descuido ideológico de seus estrategistas. A diplomacia brasileira esforçou-se bravamente, a partir de 2003, para evitar maior envolvimento com os mercados do mundo rico – especialmente do Império, como diria o líder Hugo Chávez – , mas as vendas para Estados Unidos e União Europeia ainda proporcionam quase um terço da receita (32,2% no primeiro semestre deste ano). Mais que isso: os mercados mais desenvolvidos do mundo se mantêm como grandes compradores de manufaturados made in Brazil.

De janeiro a maio, os americanos compraram US$ 5,1 bilhões de manufaturados brasileiros (45% do total importado) e US$ 2,4 bilhões de semimanufaturados. Os US$ 7,5 bilhões de industrializados corresponderam a 63,8% da receita do Brasil no comércio com o Império naqueles cinco meses.

O intercâmbio com a União Europeia também viola o padrão imaginado pelos salvadores do Brasil. Até maio, as exportações de manufaturados para o bloco europeu chegaram a US$ 7,3 bilhões, 37% do total, e as de industrializados, US$ 10 bilhões, 50,7%. Detalhe interessante: vários países europeus estão afundados em recessão e as vendas brasileiras para a região, no primeiro semestre, US$ 23,9 bilhões, foram 7% menores que as de janeiro a junho do ano passado. Mesmo assim, o mercado europeu é mais propício à indústria brasileira que os mercados dos “parceiros estratégicos”. Os US$ 12,4 bilhões de manufaturados remetidos aos Estados Unidos e à União Europeia entre janeiro e maio corresponderam a 60% do valor de todas as categorias de produtos exportadas para China, Rússia e Índia.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os Kirchners nunca se deixaram iludir pela tentação de um comércio não colonial com americanos e europeus. Graças à sua perspicácia e à visão estratégica de seus assessores, evitaram qualquer compromisso favorável à intensificação dos negócios industriais com as velhas potências dominadoras. Agora, enriquecidos com a inspiradora participação do companheiro Chávez, os governos brasileiro e argentino poderão reforçar os laços com as potências verdadeiramente comprometidas com o futuro da América do Sul, como os Brics e outros parceiros do “Sul”. Mas ainda será possível avançar em outras áreas. Que tal, por exemplo, aumentar os impostos sobre as vendas externas de manufaturados? Mais que um passo, seria um salto na direção de um comércio muito mais parecido com o dos velhos e bons tempos coloniais.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 04/07/2012

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