A Praça Castro Alves é mesmo do povo?

A semana correu sob tensão pré-carnavalesca na cidade de São Salvador, Bahia. Em greve, os policiais militares deixaram seus conterrâneos à mercê de uma sobrecarga alarmante de criminalidade, bem acima dos níveis cotidianos que, misteriosamente, aprendemos a chamar de “normais”. Cresceram o número de roubos e o número de homicídios. Até mesmo os grevistas ficaram mais desprotegidos. Na terça-feira, um policial militar à paisana, que jantava numa pizzaria no bairro de São Marcos, foi assassinado durante um assalto. As autoridades do Legislativo, do Executivo e do Judiciário passaram a discutir a legalidade ou a ilegalidade da greve, sem chegar a qualquer tipo de conclusão. Nesse meio-tempo, o Exército foi chamado e assumiu parte do policiamento local. O temor só fez aumentar. Em Brasília, inclusive, onde as autoridades se assustaram com a possibilidade de o movimento se alastrar por outros Estados. Por fim, surgiram as notícias de que os turistas cancelavam pacotes – e a venda de abadás, de camarotes e de fantasias começou a despencar.

A maior vítima dos PMs que cruzaram os braços é o Carnaval da Bahia, e o mundo percebeu o que terá sido o óbvio: sem polícia, nada de folia. Óbvio e muito, muito interessante.

Mas antes do óbvio – e do interessante – precisamos olhar o que é urgente: é preciso desmontar essa falácia de que a PM teria o direito de fazer uma greve desse modo, como se policiais fossem estudantes.

Quando foi posto o ponto final no artigo que você lê agora, o governador Jaques Wagner ainda não tinha posto ponto final na paralisação dos soldados baianos. Prevalecia o caos. Portanto, esta coluna foi escrita sob o peso da indefinição sobre os destinos da segurança pública na capital do Carnaval de rua do Brasil. Por isso, talvez você encontre aqui um sentimento acentuado de indignação e, mais ainda, de inconformidade com a tragédia dos cidadãos que morreram assim, sem mais, simplesmente porque os servidores públicos encarregados de protegê-los resolveram parar de trabalhar. Que situação violenta. Os policiais fazem sua greve e a população paga com a vida. Difícil pensar em uma desordem mais iníqua.

No fundo, não importa se a greve das tropas pode ser considerada legal ou parcialmente legal. Isso é o de menos. No plano dos fatos, a PM baiana virou uma falange de chantagistas, ameaçando a vida e a economia de sua própria gente, agindo como as milícias ilegais que vendem “proteção” a comerciantes indefesos e a moradores intimidados. Nenhum direito de organização sindical pode justificar a morte de inocentes e uma chantagem tão perversa.

Greves desse tipo não devem acontecer quando vivemos sob um Estado de Direito. E, quando acontecem, não podem perdurar. A não ser… a não ser que julguemos que a situação brasileira é igual à situação da Rússia em 1917, quando o Exército se rebelou, retirou-se da guerra, derrubou a Duma e ajudou na tomada do palácio do czar sob os disparos do cruzador Avrora. Parece loucura, mas alguns enxergam centelhas libertadoras na paralisação unilateral de servidores que, por sua própria função oficial, andam armados em nome do Estado democrático. Esse ideário existe e desafia nossa compreensão.

Aqui, enfim, deixamos de lado o que é urgente e chegamos ao que há de interessante – e óbvio – nisso tudo. Ainda sobrevive na mentalidade política no Brasil uma fantasia um tanto fanática de que toda greve é “do bem” e de que todos aqueles que não concordam com isso são “do mal”. Acreditam que a PM sublevada é a vanguarda do povão sacolejante em sua fúria carnavalesca.

Sim, carnavalesca. Na virada dos anos 1960 para os anos 1970, o Carnaval rendeu incontáveis metáforas à ideia de “revolução”. Cantar que “a Praça Castro Alves é do povo” significava cantar a liberdade. “Mete o cotovelo e vai abrindo caminho”, ensinava Caetano Veloso. Aldir Blanc queria um bloco “que bagunce e arrebente o cordão de isolamento”. Todos eles estavam certos, é claro, mas, hoje, veja você, não há Carnaval de rua se não houver cordão de isolamento. E polícia.

Naturalmente, quanto menos truculenta a polícia, mais saudável a vida do povo. Quanto melhor a polícia, melhor a democracia. Mas a greve dos policiais não é solução. Ao contrário, ela apenas realça a evidência de que a PM que aí está é a pior possível. Ela quer sequestrar a praça que era do povo. “Polícia para quem precisa de polícia”, berravam os Titãs. Já faz tempo. Hoje, quem mais precisa de polícia é a PM da cidade de São Salvador.

Fonte: revista Época

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