A situação dos jovens “nem-nem”

As mudanças recentes no mercado de trabalho têm provocado muitas discussões e análises a respeito do comportamento dos jovens na sociedade brasileira. Afinal, será que os jovens estão trocando a escola pelo trabalho? Por que será que há tantos jovens que não trabalham nem estudam (os chamados “nem-nem”), numa época em que o mercado de trabalho anda tão aquecido? Por que esses jovens não ingressam na PEA (população economicamente ativa) diminuindo assim as restrições de oferta da economia?

A chave para entender o comportamento recente dos jovens no mercado de trabalho é segui-los ao longo do tempo, acompanhando suas trajetórias entre as diferentes situações. Numa pesquisa recente1 acompanhamos uma amostra de jovens com 17 a 22 anos de idade pelo período de um ano entre 2010 e 2011, utilizando dados da Pesquisa Mensal do Emprego do IBGE. No momento inicial da análise, 19% deles estudavam e ao mesmo tempo estavam na PEA, seja trabalhando ou procurando emprego. Por outro lado, 40% deles estavam na PEA sem estudar, 25% somente estudavam e 16% estavam na categoria “nem-nem”, ou seja, nem estudavam, nem trabalhavam nem procuravam emprego.

A situação “nem-nem” é temporária para jovem qualificado, ainda mais nos períodos de economia aquecida

Entretanto, a maior parte desses jovens não permaneceu nessa situação inicial por muito tempo. A tabela abaixo mostra que, entre os jovens que estudavam e também estavam na PEA, um terço tinha abandonado a escola um ano depois, 13% abandonaram o trabalho e 6% nem estudavam nem trabalhavam. Dentre aqueles que estavam só trabalhando ou procurando emprego, a maioria (76%) permaneceu na mesma situação.

Interessante notar que entre os estudantes em período integral, só metade continuava na escola (ou faculdade) sem trabalhar um ano depois, 20% já tinham ingressado no mercado de trabalho, 18% tinham abandonado os estudos para começar a trabalhar e 13% não estavam fazendo nada. Vale notar que a transição da escola para o trabalho nessa idade provavelmente significa abandono da faculdade ou conclusão do ensino médio sem posterior ingresso no superior.

Por fim, entre os jovens do grupo “nem-nem”, que tanto interesse têm despertado ultimamente, somente 42% permaneceram na mesma situação um ano depois. Outros 42% ingressaram no mercado de trabalho, 10% voltaram a estudar e 6% deles começaram a trabalhar e estudar ao mesmo tempo.

Vemos assim que a situação do jovem é bastante volátil. O jovem precisa trocar de empregos para saber o que realmente gosta de fazer. A analogia com o mercado de casamentos é muito boa nesse caso. Dificilmente a jovem vai se casar com seu primeiro namorado, pois experimentar faz parte da vivência necessária para encontrar seu par ideal. Na transição entre empregos, ou no período de transição entre a escola e o emprego, ele pode ficar na situação “nem-nem”, mas isso é transitório em grande parte dos casos. Nesse caso é necessário olhar o fluxo para entender o problema, pois a fotografia pode mostrar um quadro pior do que a realidade.

Porém, os casos em que a situação “nem-nem” persiste por muito tempo exigem mais atenção. A duração média dos jovens nessa situação gira em torno de 4 meses e tem aumentado lentamente ao longo do tempo. Vale notar que a maior parte dos “nem-nem” tem pouca educação, 19 ou 20 anos de idade, são negros ou pardos e mulheres. Cerca de 27% dos jovens com baixa escolaridade (ensino fundamental incompleto) estão nessa condição, comparados com apenas 16% entre aqueles com ensino médio completo. Além disso, a duração média nessa situação é maior para o grupo menos escolarizado, chegando a 5 meses em média.

Mas, porque será que esses jovens com baixa escolaridade estão abandonando a escola e permanecendo inativos? A maior parte deles desiludiu-se com a escola pública e decidiu ingressar no mercado de trabalho, atraídos pelo crescimento salarial dos menos qualificados nos últimos anos. Porém, a duração no emprego também é curta para esses jovens. Assim, eles ficam transitando entre uma situação de trabalho precário e inatividade, aumentando a probabilidade de terem problemas sérios no futuro e diminuindo a produtividade da economia.

A solução para esses casos seria aumentar a atratividade da escola pública e investir na primeira infância, para que a criança não fique cada vez mais para trás no sistema escolar. Mas, para o jovem qualificado, a situação “nem-nem” é em grande parte temporária, especialmente em períodos de economia aquecida.

1 “A Condição nem-nem entre os jovens é permanente?” Centro de Políticas Públicas do Insper.

Fonte: Valor Econômico, 16/08/2013

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